domingo, 14 de agosto de 2016

Rostos (199) - Soldados



Soldados em terracota, pintados
Bombarral, Budha Eden


sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Rostos (198) - Santo António e os peixes



Santo António prega aos peixes
Painel de azulejos, Nazaré


quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Rostos (197) - "Looking back"


"Looking back", de Zadok Ben-David
Bombarral, Budha Eden


segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Rostos (196) - Guilherme Stephens



Busto de Guilherme Stephens, na Marinha Grande


sábado, 6 de agosto de 2016

A ponte sobre o Tejo, em Lisboa, que Bartissol sonhou



Passam hoje os 50 anos sobre a inauguração da ponte que ligou Lisboa a Almada, atravessando o Tejo, hoje chamada “25 de Abril”, mas com o nome de “Salazar” na data da inauguração. A ponte tinha sido começada a construir quatro anos antes, exactamente em 5 de Novembro de 1962. Neste mesmo ano de 2016, passaram também 100 anos sobre a morte de Edmond Bartissol, o francês que concebeu um dos primeiros projectos de ponte para a travessia do Tejo na zona de Lisboa e que doou a Casa de Bocage ao município setubalense. Tudo números redondos para evocar Bartissol.

Desde o primeiro trimestre de 1911 que Setúbal tem o nome de Edmond Bartissol consagrado na toponímia, dando nome à rua que antes teve S. Domingos como patrono. A razão de tal escolha está ligada à oferta da casa onde terá nascido Bocage, que o engenheiro francês fez, em 1887, à Câmara sadina. Tendo constado que a casa ia ser vendida, o engenheiro adquiriu-a, fez-lhe as obras de manutenção e doou-a à autarquia, tendo a imprensa regional da época dito que a intenção do doador era a de que ali fosse instalada “a biblioteca municipal ou um museu bocagiano”.

Nascido em 20 de Dezembro de 1841, em Portel-les-Corbières, na região de Perpignan, no sul de França, Edmond Bartissol desde cedo se tornou empreendedor de génio. Em 1866, já estava na construção do canal de Suez e, em 1875, estava em Portugal como representante da Sociedade Financeira de Paris. Estava-se então em plena época do “fontismo”, política que entendeu como progresso a facilidade de comunicações, ainda que apoiadas no capital estrangeiro. Foi assim que Bartissol se tornou numa personalidade incontornável, tendo começado pela exploração mineira e tendo chegado à construção da via férrea, na linha da Beira Alta (a partir de 1879) e na linha de Belém-Cascais (em 1886-1890), e às obras do porto de Leixões.

No entanto, o projecto que, em 1889, apresentou, em conjunto com o engenheiro Théophile Seyrig, de travessia do Tejo por ponte, na zona de Lisboa, não teve sucesso, apesar do renome de Bartissol nas obras públicas. Interessado em ligar a capital à região industrial do Barreiro e ao futuro desenvolvimento do sul de Portugal, os dois engenheiros foram autores do projecto de uma ponte que unisse as duas margens do Tejo, entre Lisboa e Almada. A ideia não era absolutamente nova, porque, em 1876, já Miguel Pais propusera a ligação entre Lisboa e o Montijo e, em 1888, Lye admitira a ligação entre Lisboa e Almada.

Tal projecto foi amplamente noticiado na imprensa, tendo a revista “O Occidente” publicado o desenho da ponte, feito por L. Freire. A ponte teria 2310 metros de extensão, sairia da Rocha Conde de Óbidos e rumaria ao castelo de Almada, dando passagem ao caminho-de-ferro, que ligaria o Barreiro ao Rossio. A ponte completa teria quatro tramos de 300 metros e seis de 160 metros. Antegozando o uso e a vista de tal ponte, dizia a revista, na sua edição de 11 de Julho de 1889: “A ponte será de um só tabuleiro, metade do qual é destinado ao trânsito ordinário, metade à via-férrea. A largura total é de 25 metros nos pilares e 18 no tabuleiro. A altura do tabuleiro para o nível da água é de 50 metros. A perspectiva é elegante e digna de uma cidade como a nossa. Pena será, pois, se tão grandiosa obra ficar só na gravura.” Numa outra edição da mesma revista, que tinha saído em Abril, era especificado que o tabuleiro, além da via-férrea, teria uma “via para carros e peões, tendo esta via 8 metros de largura ao centro e dois passeios de um metro e meio cada um”.

No entanto, tal projecto exigia a construção de túneis e tinha custos elevados (nove mil contos de réis), verba incomportável para as possibilidades financeiras do país. Por estas razões, aquela ponte, “que seria sem questão alguma a mais notável do seu género em todo o mundo”, ficou sem efeito.

Vários projectos se seguiram a este, quer no século XIX, quer na primeira metade do século XX, todos tendo tido a mesma sorte. As coisas mudaram em 1958, quando foi tomada a decisão da construção da ponte a ligar Alcântara a Almada. Dois anos depois, havia quatro propostas, tendo a primazia sido dada à da United States Steel Export, que arrancou com os trabalhos no início de Novembro de 1962. Cerca de quatro anos mais tarde, em 6 de Agosto de 1966, era inaugurada a Ponte Salazar, a unir as duas margens, com uma localização não muito distante da que prognosticara Bartissol. O seu custo rondou os dois milhões de contos (cerca de onze milhões de euros). Passavam nessa altura 50 anos sobre a morte de Bartissol. Muito teria este francês desejado a construção da ponte, mesmo a avaliar pela sua ligação a Portugal!

Apesar de ter andado por outras partes do mundo, em que se incluiu Moçambique, em construções e empreendimentos de grande envergadura, Bartissol estabeleceu raízes também no Alentejo, adquirindo a Herdade do Pinheiro, onde, a partir de 1880, passava uma parte significativa do ano.

Já no século XX, Bartissol dedicar-se-ia também à política, chegando mesmo a ser presidente da Câmara na sua região. Em Março de 1916, Bartissol rumou de Paris para a Herdade do Pinheiro a fim de ali passar os costumeiros três meses. Foi a sua última estadia em Portugal. No final de Junho, regressou a Paris e, em 16 de Agosto, vítima de uma congestão pulmonar, faleceu na sua casa parisiense. Assim acabava os seus dias aquele que Christophe Charle apresentou como “o único exemplo de um self-made-man na plena acepção do termo”.

A tão desejada ponte sobre o Tejo só viria 50 anos após a sua morte. Quanto ao museu bocagiano em Setúbal, esse levaria mais uns anos a chegar e, coincidência ou não, foi apenas em 2006, ao passarem 90 anos sobre a morte de Bartissol, que ele foi inaugurado na Casa de Bocage.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Samuel Trezor, "Diferença que nos une"


Diferença que nos une, de Samuel Trezor (n. 1986), recentemente apresentado em Setúbal, em edição de pequena tiragem, é o segundo livro do autor.
Organizado em onze partes, por todas perpassa o louvor à vida e àquilo que a compõe, sofrimento incluído. Construído entre a prosa narrativa e os pequenos poemas, entre o relato autobiográfico e o rap, Diferença que nos une é o trajecto do seu narrador, valorizando as aprendizagens, as pequenas vitórias do quotidiano, os apoios prestados, o amor e a paixão, a solidariedade e o respeito pelo outro, a partilha, ao mesmo tempo que vai alimentando uma homenagem à família, com destaque para a figura da avó, mas por onde passam também a mãe e os irmãos, além dos amigos.
A vertente da aprendizagem ao longo da vida vai acompanhando o percurso deste escrito de Trezor (“não vejo este livro como uma biografia mas como um percurso de alguém que está em permanente busca, à procura de algo”, diz no final do segundo capítulo), tornando-se impressionante a delicadeza posta na descoberta do mundo, a simplicidade com que se fala de Deus, a transparência posta na definição de uma relação amorosa (com transcrição de sms e comentários sobre a paixão vivida) ou a energia que resulta da construção de princípios para a vida.
A linguagem corre simples, quase ao sabor dos sentimentos do momento, marca importante neste discurso testemunhal, mas, talvez por isso mesmo, com um texto a carecer de cuidados de revisão. A leitura é agradável, porém, sobretudo pela dimensão humana e de partilha e também pela espontaneidade que o narrador-poeta insufla no texto.
Sublinhados
Identidade – “A nossa origem é a maior tatuagem que um ser humano pode carregar.”

Vida – “A vida é um ensaio das nossas almas em busca da felicidade que cada homem e mulher veneram e sonham.”

Bocage: Poemas à solta nas ruas de Setúbal (2)

O projeto para 30 poemas de Bocage andarem à solta pela cidade de Setúbal, denominado "Bocage - 30 poemas na rua", teve a sua segunda fase de instalação há dias. Com a participação do Teatro Estúdio Fontenova, da Câmara Municipal de Setúbal e de diversos artistas e actores, uns para darem cores aos poemas, outros para lhes emprestarem a voz, o segundo grupo de quatro recantos, preenchido com oito poemas, está espalhado pela cidade, em sítios relacionados com o tempo de Bocage:

5) Na Avenida Luísa Todi, onde era a beira-mar setecentista, com os poemas "Um governo sem mando, um bispo tal” (interpretado por Tânia Cardoso e Rodrigo Crespo) e "Eu me ausento de ti, meu pátrio Sado” (dito por Rafael Bidarra e Matilde Javier Ciria) e a intervenção plástica de Wagner Borges.
6) Na Avenida Luísa Todi, onde era o Regimento de Infantaria, com os poemas "Sobre o degrau terrível assomava" (interpretado por Odete Santos) e "Ao crebro som do lúgubre instrumento” (dito por José Lobo) e a intervenção plástica de André Mares.
7) Na Avenida Luísa Todi, onde era o Postigo do Cais, com os poemas "Adamastor cruel! De teus furores” (interpretado por “Um corpo estranho”) e "Camões, grande Camões, quão semelhante” (dito por José Nobre) e a intervenção plástica de André Mares.

8) Na Rua Arronches Junqueiro, junto à Porta de S. Sebastião, com os poemas "Neste horrível sepulcro da existência” (interpretado por Maria Clementina) e "Enquanto o sábio arreiga o pensamento” (dito por Moniztiko) e a intervenção plástica de Prahlad Fernando Aranda.

terça-feira, 12 de julho de 2016

No desporto, parabéns, a todos os títulos... (mesmo que custe aos franceses)



Dizia Rogério Alves há minutos na SIC-Notícias que "Descartes é francês, mas o futebol não é cartesiano". Eis uma lição que muita gente não percebeu, a começar pelos comentadores que eram pró-França no Europeu de Futebol!...
Claro que, no Domingo, Portugal mereceu todos, mas todos, os parabéns no desporto: no atletismo, pelo primeiro lugar de Sara Moreira (meia maratona feminina, em 1h10'19'') e de Patrícia Mamona (triplo salto, de 14,58 m), e pelo terceiro lugar de Jéssica Augusto (meia maratona feminina, em 1h 10'55'') e de Tsanko Arnaudov (lançamento de peso, com 20,59 m); no futebol, com o título de Campeões Europeus, obtido pela Selecção Nacional no Stade de France, com um golo de Eder aos 109'. Tudo, depois de Ana Dulce Félix, ter sido a segunda classificada nos 10 mil metros...
Quanto aos comentários... volte-se ao cartesianismo de que Rogério Alves falou.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Praxes para a integração? Não, obrigado!


Uma centena de subscritores (artistas, professores, jornalistas, políticos, escritores, desportistas, etc.) pôs a sua concordância numa carta aberta dirigida a todas as instituições de ensino superior a propósito das praxes que inundam o início do ano lectivo em todo o país.

Depois de analisarem a forma como a actividade praxística se tem “institucionalizado”, duas coisas são pedidas às instituições de ensino superior:

PRIMEIRA: «Instamos todas as equipas dirigentes das Universidades, Politécnicos, faculdades e escolas superiores a criar, com caráter duradouro, atividades de receção e de integração dos novos estudantes e das novas estudantes, ao longo do ano letivo, que configurem uma alternativa lúdica e formativa às iniciativas promovidas pelos grupos e organizações de praxe.»

SEGUNDA: «Apelamos também a que as mesmas instituições informem atempada e eficazmente todos os novos alunos e todas as novas alunas, por exemplo através do envio de um e-mail ou entregando, no ato da matrícula, um esclarecimento nesse sentido, de que as atividades de praxe não constituem qualquer espécie de obrigação e que não podem ser prejudicadas de nenhuma forma ou ameaçados de qualquer maneira por recusarem participar, devendo ser fornecido um contacto para o qual possam ser endereçadas queixas.»

Dois pedidos que deviam ser norma e que podem fazer a diferença, mais do que justos e que deveriam ser mais do que evidentes e, sobretudo, praticados.

Nas praxes a que o cidadão comum tem de assistir na rua, seja em Lisboa, em Setúbal ou noutro canto, não se vê, habitualmente, a marca de integração, antes se observa a boçalidade, a idiotice, a humilhação, a fanfarronice de uns poucos “mestres de praxe” perante os que serão os seus colegas ao longo do ano lectivo e do curso. Indigna atitude de indignos princípios!

Há dias, quando estava num encontro com alunos que acabaram o 12º ano e com outros que já estão no ensino superior, dizia uma das que está no final do 1º ano de uma instituição de ensino universitário para outra: “Se quiseres vir para a minha Escola, esse curso funciona bem, mas vais ter uma praxe pesada!” Fiquei espantado e ainda mais admirado quando ela, com um ano de universidade, me disse que ia participar nessa praxe porque era “giro”!...

Faz sentido haver alternativas, que podem passar pelo dizer “não” ou mesmo pela criação de outras vias de integração (se é de integração que se quer falar). Daí que tenha apreciado práticas de integração no ensino superior que passam por campanhas de solidariedade e de trabalho de voluntariado entre os alunos que chegam e os alunos que já lá estão, visando o conhecimento em equipa e a melhoria de condições sociais para desfavorecidos. Daí que o apelo surgido nesta carta faça todo o sentido, mesmo por ser um sinal de humanidade, uma defesa de direitos cívicos e uma questão de educação que não acarreta custos.

Compete agora às escolas de ensino superior o resto, assumindo a demarcação e a alternativa a práticas que em nada dignificam as pessoas, os estudantes ou as instituições. E compete aos jovens que iniciam os estudos universitários optar por serem tratados como pessoas.