segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

José Tolentino Mendonça: "A papoila e o monge", uma peregrinação ao silêncio



Todos os livros terão uma história. A deste é: o autor foi convidado pelo Centro Nacional de Cultura para integrar uma viagem ao Japão, ocorrida no final de 2010, no papel de escritor. Durante a viagem, viu; longe dos sítios e do tempo da visita, sentiu e escreveu. Na “Apresentação”, conta: “Já em Lisboa, alguém recordou-me um facto que teria causado embaraço: durante toda a viagem ninguém me vira tomar uma única nota. Era verdade.” Três anos volvidos, o livro surgiu. Falo de A papoila e o monge, de José Tolentino Mendonça (Lisboa: Assírio & Alvim, 2013), um dos mais bonitos livros que li neste ano.
Com esta obra, Tolentino Mendonça enfileira na lista de poetas portugueses que seguiram o género do “haiku” japonês, embora ocidentalizado, para contar “simplesmente muito em três curtos versos”. Ao longo de seis partes (“Escola do silêncio”, “Vida monástica”, “Guia para perder-se nos montes”, “Amanhecer na primeira cidade”, “Amanhecer na segunda cidade” e “Livro das peregrinações”), o leitor encontra-se com a viagem interior, uma quase peregrinação, do poeta, num trabalho exímio de busca da palavra certa e repleta de sentido, do verso intenso.
Lê-se a obra e percebe-se que não se poderia estar à espera de um livro de viagens ou da reportagem de um circuito pelo Oriente, tal como desejaria(m) o(s) participante(s) embaraçado(s) que não tinha(m) visto o escritor convidado a registar apontamentos para uma fotografia mais ou menos íntima, mais ou menos descritiva, mais ou menos narrativa do que tenha sido a viagem.
O silêncio domina, é preponderante, atravessa todo o livro. O silêncio ensina, ajuda a reconstruir a viagem, alicerça o livro e o poema. Muitos dos poemas funcionam como máximas, aprendizagens, descobertas. O poeta constrói-se sobre versos de sentir, numa (re)visitação que apenas pode ser conduzida pelo poeta só – “Quando o templo se esvazia / então brilha / esplêndido”.
Fascinado que está o leitor com esta descoberta da contemplação do silêncio, uma outra se lhe depara: “A história relata o que aconteceu / o silêncio narra / o que acontece”. Fica-se, assim, perante a necessidade de se ouvir o silêncio, demanda de paz interior, de uma contemplação que não considera o ruído, que não existe ao lado do ruído.
Em cada volver de folha, uma nova revelação, um passo mais na peregrinação interior que a viagem é, que a escrita ajuda a consolidar. A viagem vira meditação, porque “a vastidão do mundo / para o peregrino / não é mais do que um quarto vazio”. E o caminhante prossegue, da mesma forma que o leitor avança, ávido, porque, no final, mesmo a encerrar o livro, surge o poema crucial, de convite: “Agora só resta / tornares-te / o poema”.
Emoção forte, a do leitor. Gosta-se deste calcorrear pelas veredas dos versos, num percurso a sós, único, singular. Um dos mais bonitos livros que li neste ano, repito.

domingo, 29 de dezembro de 2013

José Lobato: Invocações de Nossa Senhora em Setúbal



Que imagens há de Nossa Senhora na região sadina? A pergunta encontra resposta no livro Invocações marianas na diocese de Setúbal, assinado por José Lobato (Setúbal: Vigararia Geral – Comissão Diocesana de Arte Sacra, 2013), surgido no início de Dezembro.
Ao longo de 70 páginas, o leitor confronta-se com a pluralidade de designações que à Virgem Maria são atribuídas no território da diocese e com a indicação dos locais em que surgem essas invocações. Um caminhar por este livro surpreende pela diversidade existente no culto marianológico na região: 21 invocações são acompanhadas de curto comentário de natureza histórica ou religiosa e de texto literário em que surge referência a tal invocação (são os casos de Nossa Senhora da Arrábida, dos Anjos, da Anunciação ou da Anunciada, da Assunção, da Atalaia, da Boa Viagem, do Bom Sucesso, do Cabo, do Carmo, da Conceição, da Consolação, das Dores, da Graça, da Piedade, do Rosário, do Rosário de Fátima, do Rosário de Troia, da Saúde, da Soledade, do Imaculado Coração de Maria e de Santa Maria). Nos textos literários seleccionados constam excertos de Frei Agostinho da Cruz, Gil Vicente, Frei Luís de Leão, João de Deus, António Correia de Oliveira, António Nobre, José Régio, Diogo Bernardes, Antero de Quental, Zeferino Madaleno, D. Gilberto Reis e padre António Vieira, além de outros colhidos na literatura religiosa.
No capítulo “Outras invocações”, há ainda espaço para a referência a mais 44 designações de Nossa Senhora vividas na diocese, dando estas lugar a muito curtas anotações.
O livro fecha com o texto da consagração da diocese de Setúbal a Nossa Senhora, feita em Fátima, na peregrinação que assinalou o 30º aniversário da criação da diocese, ocorrida em 16 de Julho de 2005, pelo prelado sadino D. Gilberto Reis.
Nas palavras de José Lobato, constantes na “Introdução”, o projecto deveu-se a pedido expresso do bispo setubalense, pretendendo “oferecer um contributo ao reconhecimento da presença e da missão de Nossa Senhora na vida da Igreja e de cada crente”. Para o autor fica a sensação de um trabalho incompleto, uma vez que a devoção mariana na diocese muito mais terá para contar para lá do registo das invocações. Com efeito, uma tal diversidade exige um olhar mais reflexivo e prolongado sobre o assunto; no entanto, o levantamento das invocações é já um ponto de partida, que será o que este livrinho, nada pretensioso, pretende ser.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Máximas em mínimas - Afonso Cruz


Depois de ler Afonso Cruz, em Os livros que devoraram o meu pai – A estranha e mágica história de Vivaldo Bonfim (Alfragide: Editorial Caminho / Leya, 2010), um percurso por muitas leituras e pelo que delas ficou, eis frases que são marcadores:

Árvore – “Para uns, a raiz é a parte invisível que permite à árvore crescer. Para mim, a raiz é a parte invisível que a impede de voar como os pássaros. Na verdade, uma árvore é um pássaro falhado.”
Consciência – “É dentro da sua cabeça que todos os homens são livres ou condenados.”
Homem – “Nós somos feitos de histórias, não é de a-dê-énes e códigos genéticos, nem de carne e músculos e pele e cérebros. É de histórias.”
Humano – “Se há seres vivos desumanos, só mesmo os humanos. Resultado: os animais humanizados tendem a voltar à sua condição primitiva, a de animais.”
Memória – “As memórias são a perspectiva do passado, mas não são a mesma coisa. Elas mudam com o tempo, não são crónicas postas em papel e descritas objectivamente com rigor. São coisas emotivas que variam a cada vez que são lembradas. As memórias são repensadas e vão-se tornando outra coisa. (…) As nossas memórias nunca são verdadeiras ou absolutamente verdadeiras, são apenas uma interpretação. Existem outras e ao longo dos anos vamos vendo o passado a uma luz diferente. As nossas memórias vão sendo vistas de diferentes perspectivas, conforme aquilo que aprendemos e conforme aquilo que sentimos no instante em que as relembramos.”
Vida – “A vida, muitas vezes, não tem consideração nenhuma por aquilo de que gostamos.”

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Para a agenda: no 38º aniversário do TAS



No 38º aniversário do TAS (Teatro Animação de Setúbal), A estrela de seis pontas, de Manuel Tiago, interpretada por José Nobre, com a participação de Carlos Curto. Vários motivos para uma entrada na agenda!

Abraço ao Manuel Bola, aliás, Carlos Rodrigues


Numa passagem pelo Hospital de S. Bernardo ao princípio da tarde da véspera de Natal, fui dar um abraço ao Manuel Bola (Carlos Rodrigues). Parece que o mais difícil já terá passado, embora a recuperação seja para durar. Mesmo assim, o Manuel Bola mantém o seu sentido de humor e a sua veia poética - estava, de resto, a ler (embora com dificuldade) alguns dos seus poemas. Falámos do sol na sua poesia, falou-me de um poema dedicado à mãe, lembrou o amigo Miguel de Castro, também poeta. Quanto ao sofrimento de enfermaria, improvisou: "uns são sacrificados, outros são salpicados".
Foi bom ter visto o Manuel Bola! Um abraço para ele.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Natal, lendo Fernando Aires


Tenho andado a ler o primeiro volume de Era uma vez o tempo (Ponta Delgada: Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1988), o diário de Fernando Aires, um magnífico marco de escrita autobiográfica, sensível, intimista, humano. E dou por mim a chegar ao registo da "véspera de Natal" de 1985 (o dia de hoje de há 28 anos) num apontamento que transcrevo:

«Amanhã nasce o Homem, o tal que veio calado e pobre e que só falou pouco antes de morrer. Não deixou nada escrito de sua mão, nenhum testamento em letra de forma. O que sabemos dele é por outros - e não há dúvida que tocou esses outros, pois que o guardaram no côncavo da memória.
A partir daqui, os olhares lançados para outros olhares (apesar de tudo) nimbaram-se de outras promessas - independentemente do pró ou do contra que se é. Alguma coisa mexeu por dentro, pois que se pressentiu que havia uma nova maneira de amar.»

Boas Festas! Bom Natal!

sábado, 21 de dezembro de 2013

Boas Festas! Bom Natal!


Desenho de Almada Negreiros (em Diário de Lisboa, nº 3993, 24 de Dezembro de 1933, pg. 1)

Máximas em mínimas - Almada Negreiros

Depois de reler Almada Negreiros, em Nome de guerra (escrito em 1925 e só publicado em 1938)...

Amar – “Quando se gosta de alguém, gostar, gostar a valer, a gente não sabe mais nada neste mundo senão que gosta dessa pessoa. (…) Vão os dois para toda a parte, com ou sem dinheiro, andam juntos. Gostar é gostar.”
Autobiografia – “O trabalho para a autobiografia não é mais do que evitar aquilo a que outros nos quiseram forçar.”
Família – “Temos todos as nossas árvores genealógicas do mesmo tamanho. Lá no tamanho das árvores somos todos iguais. Mas é precisamente nas árvores que está a nossa diferença. Vê-se perfeitamente que a cada um aconteceu qualquer coisa que não se passou com mais ninguém. E aconteceu-nos antes ainda de nós termos nascido. É a árvore genealógica. Esse segredo do nosso segredo. Esse mistério do nosso mistério. Nós somos hoje o último fruto dessa árvore secular, secularmente secular!”
Lealdade – “Quando os inimigos se igualam, e igualadas as forças dos adversários, já não há outras esperanças senão as que ficam fora do terreno da lealdade.”
Mulher – “A mulher sabe perfeitamente melhor o efeito que produz nos homens do que o homem nas mulheres.”
Palavra – “O número de palavras não é infinito, mas é infinito o número de efeitos, conforme a disposição das palavras. Com vinte e seis letras do alfabeto escrevem-se todos os idiomas e não ficam escritas todas as palavras nem definitivos os dicionários.”
Realidade – “Não há mestre mais categórico do que a realidade a seco.”
Separação – “Quando duas pessoas separam as suas coisas que estiveram juntas, o que é de cada um é tão pouco que ainda é menos do que antes de conhecer aquele de quem se separa.”
Sinceridade – “Ninguém no mundo se pode queixar de ter sido vítima da sua sinceridade. O que pode é cada um ficar surpreendido com o facto de a sua sinceridade o ter levado mais longe do que lho permite a sociedade.”
Solidão – “O horror de estar só no mundo apenas o podem sentir aqueles que já perderam o melhor que tinham e não conseguem a certeza de nada.”
Verdade – “Aqueles que pretendem ver a verdade e não tiram os olhos de cima dela acabam por esquecer-se que a querem ver e ficam só a olhar para ela; mas os que fazem por esquecê-la, quanto mais se esforçam por distrair-se mais a verdade os agarra pelos pulsos e lhes fala cara a cara.”
Verdade – “Quem pensa sozinho não quer senão a verdade, as justificações são por causa dos outros.”
Vida – “Há vidas que é preciso encher com qualquer coisa de vez em quando.”
Vida – “São tão diferentes as idades da vida de cada um que quem não vai por essa diferença é porque parou numa delas. As idades da vida não se passam por alto; ou se vivem ou ficam por viver.”

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

"Sermão do Desacordo" - a propósito do Acordo Ortográfico de 1990


Nunca fui fã do Acordo Ortográfico (AO 90) em que sou obrigado a escrever nos documentos sujeitos ao epíteto de "oficiais". Isto obriga-me, como a muitos outros, por certo, a ter de praticar a grafia anterior ao Acordo e a do Acordo, o que é jogar numa duplicidade absolutamente desnecessária e incompreensível, sobretudo porque não advieram vantagens - quaisquer vantagens - da prática do AO 90.
No Público de hoje, Rui Miguel Duarte assina o texto “Sermão do Desacordo aos Deputados”, começando por referir que está agendada para o próximo dia 20, a partir das 10 horas, a apreciação da Petição N.º 259/XII/2, pela Desvinculação de Portugal em relação ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 (AO90) e que "a petição , que conta já com mais de 15.000 subscrições, mereceu da parte do relator, o deputado Michael Seufert (CDS), um parecer exemplar, que merece ser lido e entendido."
Subscrevo a opinião da utilidade da leitura do parecer assinado por Michael Seufert e não posso deixar de assinalar o final do artigo de Rui Miguel Duarte, num apelo aos deputados para apreciações pautadas por rigor que nem sempre é evidente nem evidenciado e que aqui reproduzo:

Para a agenda: Música em Azeitão até Fevereiro



Até ao início de Fevereiro, um programa diversificado constitui a "Temporada Musical", que pode ser vista e ouvida nas duas freguesias, S. Lourenço e S. Simão. Para a agenda.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Memória: Soares Branco (1925-2013)



Vi a notícia no Expresso de ontem. Escultor, docente na Escola Superior de Belas Artes, assinou grande quantidade de obras um pouco por todo o país. Na região de Setúbal, recordo-me de duas: a Nossa Senhora da Boa Viagem, nos Capuchos, em Almada (de 1953) e a escultura de S. Francisco Xavier (de 2001), em Setúbal. Um nome a lembrar, sem dúvida.

sábado, 14 de dezembro de 2013

"A noite enlouqueceu o silêncio", de Resendes Ventura, na noite de ontem



Éramos cerca de meia centena no salão da Casa da Cultura, em Setúbal, na noite de ontem, para ver o primeiro livro de publicação póstuma de Manuel Medeiros, de concepção gráfica devida a José Teófilo Duarte. Estávamos lá para saborear as palavras de A noite enlouqueceu o silêncio (Setúbal: Muito cá de casa / DDLX, 2013), um grupo de 23 poemas, que Viriato Soromenho-Marques brilhantemente apresentou, num percurso pelo papel da poesia e do pensamento, numa via em que a poesia de Resendes Ventura (pseudónimo de Manuel Medeiros) se revelou na sua totalidade de poeta-filósofo, em economia e precisão de palavras.
Houve ainda os poemas lidos por Eduardo Dias e Graziela Dias e o testemunho da Fátima Medeiros, que seleccionou os poemas. E que boa escolha fez! E como sentimos ainda o dizer do Manuel Medeiros, sibilando por entre os versos, cosendo e descosendo palavras e ideias, num tão seu jeito de pensar e de levar a pensar, de ler o mundo e de escrever a vida. Foi também uma insistência na lembrança, essa “longa estrada”, que nos deixou num poema assim chamado, do tamanho de sete reduzidos versos que nos apontam o caminho da memória e que reproduzo:
Muito longa
longa estrada
muito longa estrada
a longa estrada
em minha frente.
Longa
muito longa!

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Para a agenda: Poemas de Manuel Medeiros



A agenda do "Muito cá de casa" traz-nos, na sexta, as palavras de Manuel Medeiros, o "Livreiro Velho" ou Resendes Ventura. A noite enlouqueceu o silêncio, um conjunto de poemas inéditos, apresentados por Viriato Soromenho-Marques. Na Casa da Cultura, em Setúbal. Para a agenda!

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Memória: Nelson Mandela (1918-2013), por Jef Aérosol



"We can't afford to be killing one another" (Nelson Mandela)
Mandela, por Jef Aérosol, em Caen, junto ao Mémorial

Para a agenda: Inês Gato de Pinho conta a história do Palácio Fryxell e da passagem dos Jesuítas por Setúbal

 

Inês Gato de Pinho apresenta De Colégio de S. Francisco Xavier a Palácio Fryxell (Setúbal: Instituto Politécnico de Setúbal, 2013) amanhã, pelas 15h00, no Palácio Fryxell, sede dos Serviços da Presidência do IPS.
Uma boa oportunidade para contactar com um livro bonito, interessante, bem construído e inteligente, versando assunto de que rareia a bibliografia: o Palácio Fryxell, a reabilitação arquitectónica em Setúbal e a passagem dos Jesuítas por Setúbal. Para a agenda!
 

Memória: Nelson Mandela (1918-2013)

 

"Um homem que fez o seu dever na terra". Foi esta a inscrição que Mandela pediu para a sua lápide. É esta ideia que deve permanecer.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Inês Gato de Pinho: "De Colégio de S. Francisco Xavier a Palácio Fryxell"



Aceite o leitor o convite para subir a Rua Arronches Junqueiro, ali a partir do centro de Setúbal, até chegar ao arco de S. Sebastião, ponto em que atravessa a muralha, desembocando no Largo dos Defensores da República. O espaço anuncia-se vasto e, do seu lado esquerdo, surge-lhe frontaria de casa nobre, com duas torres não muito altas relativamente ao resto da fachada, numa pose rígida quanto baste, reforçada por uma localização algo altaneira, voltada para o Sado, via de entrada na cidade, sobretudo em tempos que já lá vão, talvez na época em que o edifício foi construído…
É neste momento que a história se nos impõe qual demanda por sendas de aventura ou peregrinação pelos itinerários da identidade. É neste momento que nos socorremos da obra De Colégio de S. Francisco Xavier a Palácio Fryxell, de Inês Gato de Pinho (Setúbal: Instituto Politécnico de Setúbal, 2013), guia que nos desvenda as linhas arquitectónicas bem como as linhas por que a história se foi fazendo – a história da construção e longas e diversas entradas na história de Setúbal, uma e outras vogando a par no ondular do passado.
O título do escrito remete-nos para duas utilizações distintas deste espaço – a primeira, devida a ordem religiosa, e a segunda, a utilização próspera e aburguesada – ambas marcando justamente os extremos da vida do edifício até à sua passagem para as mãos do Instituto Politécnico de Setúbal pela década de 1980.
Entre as duas referências constantes no título passou um tempo de cerca de três séculos, o que nos possibilita um recuo até meados de Seiscentos, quando D. João IV assinou autorização para a instalação de colégio jesuíta em Setúbal a fim de que aqui houvesse “pregadores, confessores e mestres que ensinem latim e as ciências necessárias para os sujeitos da terra”.
Corria o ano de 1654 e o despacho régio era datado de 3 de Junho. A essa data, já vários colégios da Companhia de Jesus existiam em Portugal, o mais antigo dos quais localizado em Coimbra desde 1542, a que se seguiram, por ordem alfabética, fundações em Angra do Heroísmo, Braga, Bragança, Elvas, Évora, Faial, Faro, Funchal, Lisboa, Ponta Delgada, Portalegre, Porto, Santarém e Vila Viçosa. O consentimento régio, como resposta a pedido da câmara da vila, em associação com o facto de a ordem dos Jesuítas ter sido herdeira única de André Velho Freire e de sua mulher, D. Filipa de Paredes, levou a que muito rapidamente, em 1655, fosse iniciada a construção do colégio sadino, nos arrabaldes de Palhais, numa área extensa, localizada entre as traseiras da Igreja de Santa Maria e o dito Palácio Fryxell, passando pelos terrenos do Pátio Gago da Silva e da gráfica dos Armazéns de Papéis do Sado.
As instalações serviram os Jesuítas durante cerca de um século, até à expulsão desta ordem religiosa em 1759, depois de forte impulso na reconstrução devida aos estragos causados pelo terramoto. Uma década mais tarde, o edifício passava para outra ordem religiosa, das freiras bernardas, passando a ser, ao longo de uma década, o Real Mosteiro de Nossa Senhora da Nazaré de Setúbal. A partir daqui, a propriedade começou a desmembrar-se e a ter diversificados fins: um teatro com porta para a Rua de Santa Maria nas duas primeiras décadas do século XIX, estabelecimentos comerciais, afectação pelas obras ferroviárias da Linha do Sado, espaço de habitação no Pátio Gago da Silva, fábrica de conservas alimentícias e de conservas de sardinha, fábrica de transformação de cortiça e parque tipográfico, num trajecto que vem até ao século XXI.
A história do edifício que Inês Gato de Pinho nos vai contando, sempre orientada pela pesquisa arquitectónica e tendo em vista o processo das sucessivas reabilitações do edifício, surge eivada de outras histórias, num processo de contaminação com o meio e com o que tem sido a própria narrativa de Setúbal. A investigação levada a cabo, não isenta de dificuldades (sobretudo relacionadas com a inexistência de documentação alusiva a datas importantes do edifício), ultrapassa os limites murais da propriedade e entra nos quotidianos de Setúbal de várias épocas, dando conta das evoluções socioeconómicas, do modo de viver das próprias ordens religiosas (com destaque para a Companhia de Jesus e o seu “Modo Nostro”), dos agentes promotores (que biografa), das vidas de trabalho, num quase reconhecimento de que a localização do espaço permite uma visão de conjunto sobre a comunidade.
À medida que os episódios sobre esta construção vão avançando vai o leitor tendo consciência de que a própria história está a ser construída, não deixando Inês Gato de Pinho de acentuar que algumas das leituras que apresenta são conjecturas que poderão vir a ser contrariadas ou aprofundadas por outros estudos ou por outras descobertas – não podemos esquecer que muitos dos documentos que poderiam fundamentar a história do complexo jesuíta em Setúbal desapareceram na voragem da perseguição à própria ordem religiosa no século XVIII e no incêndio dos Paços do Concelho em Outubro de 1910 e que muitos outros documentos andam dispersos (perdidos?) por instituições várias.

Pelo que revela – de que se podem destacar os casos da localização da igreja do colégio jesuíta, as mutações ou adaptações a que o espaço esteve sujeito, os intervenientes responsáveis por essas alterações, o repositório que a actual capela de S. Francisco Xavier é no respeitante a elementos oriundos de outros espaços de Setúbal e até as possibilidades de investigação no futuro –, este estudo de Inês Gato de Pinho bem se torna importante para a bibliografia sadina, não só na vertente de história da arquitectura, mas também nos domínios da sua história religiosa e da sua história económico-social. Iniciativa louvável, pois, para uma obra que se afigura indispensável para o estudo da identidade setubalense.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Para a agenda - A história do palácio Fryxell contada por Inês Gato de Pinho



De colégio de S. Francisco Xavier a Palácio Fryxell - História e análise arquitectónica - eis o título do trabalho de Inês Gato de Pinho, que pode ser lido a partir de 3 de Dezembro, data em que a obra será apresentada nas instalações do Instituto Politécnico de Setúbal e que coincide com uma data xavieriana. Para a agenda!

domingo, 1 de dezembro de 2013

Para a agenda - No dia de S. Francisco Xavier, em Setúbal



S. Francisco Xavier anda envolto numa lenda em relação a Setúbal. Mas o certo é que é ele o padroeiro de Setúbal e tem direito a monumento ali à beira-Sado. Atesta também a ligação dos jesuítas a Setúbal, relação ainda pouco estudada. A LASA iniciou a tradição de celebrar o dia do padroeiro xavieriano, a que estão associadas outras instituições, designadamente a diocese, a autarquia e o Instituto Politécnico de Setúbal. Todo o programa tem interesse, mas devo destacar um muito bom contributo para a história local, que é a apresentação da obra de Inês Gato de Pinho sobre o Palácio Fryxell, casa ligada aos Jesuítas e, actualmente, ao IPS, mas que já foi várias outras coisas. Para a agenda, no dia 3 de Dezembro!

sábado, 30 de novembro de 2013

Dia da Livraria e do Livreiro, hoje



Dia da Livraria e do Livreiro. Hoje. Com visita indispensável a uma livraria e um contacto mais directo, privilegiado e aturado com o livro e com o seu livreiro. E também com quem gosta de livros. Hoje.
E, a propósito: em Setúbal, na Culsete, na tarde de hoje, além de a data ser assinalada, haverá a entrega do diploma LIVREIRO DA ESPERANÇA ESPECIAL CULSETE - 40 ANOS, atribuído aos livreiros Manuel Medeiros e Fátima Medeiros. Fisicamente, estará só a Fátima; o Manuel estará também, sorrindo a partir de algures, invadindo as memórias enquanto conta estórias de livros a partir da eternidade.
Viva o Dia da Livraria e do Livreiro! Muito do que somos é devido a estes interlocutores! 

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Para a agenda - Miguel de Castro: reencontro hoje, em Setúbal



Mais uma iniciativa do José Teófilo Duarte para a edição de um poeta setubalense e para o enriquecimento do programa de actividades da Casa da Cultura setubalense. Hoje, pelas 22h00, encontro com alguns textos de um grande poeta, Miguel de Castro (Jasmim Rodrigues da Silva, de baptismo). A não perder.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

O ensino do Português e as Metas Curriculares, segundo António Carlos Cortez



Um artigo de opinião saído no Público de hoje. Que merece leitura atenta e reflexão. Subscrevo-o, em grande parte, embora também ache que a política de educação, programas incluídos, não deve andar à mercê dos tempos dos governos, antes deve exigir um pacto decente e uma duração a condizer.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Marcos de uma semana em que não disse (3) – Coral Infantil de Setúbal com 34 anos



Foi deslumbrante e emotivo o espectáculo com que o Coral Infantil de Setúbal assinalou o seu 34º aniversário na noite de sábado, no Forum Luísa Todi. De alguma forma participei no evento, ao ter sido responsável pelo guião da obra “O poeta da Arrábida”, que Samuel Pascoal musicou, que a Banda da Armada executou e que umas dezenas de coralistas interpretaram, gesto com que o Coral quis homenagear uma figura da cultura portuguesa nascida no concelho de Setúbal, Sebastião da Gama.

Esta razão foi forte para ter gostado do concerto, por ter admirado o caminho que a música seguiu, tendo feito uma interpretação sagaz da história e da poesia do poeta azeitonense. Mas igualmente intensa foi a sensação da obra feita por esta instituição, do clima vivido pelos componentes do Coral, do quanto estas organizações dão à educação, à cidade, à identidade. Uma alegria de entusiasmo, uma simplicidade comovente, uma grandiosidade de exemplo. Parabéns!
[Foto: Coral Infantil de Setúbal e Banda da Armada no concerto de 23 de Novembro, tirada daqui.]


Marcos de uma semana em que não disse (2) – Memória: Maria Irene Alves (1927-2013)



Conheci a Dra. Irene Alves (Maria Irene Ribeiro Gonçalves da Silva Alves) pelo final da década de 1980. Mantivemos muitos momentos de conversa, devidos a afinidades várias: a escola, o ensino do Português, a cultura portuguesa, a literatura, Sebastião da Gama. E também, sobretudo talvez, devido à amizade que fomos construindo e à admiração que fui nutrindo pela sua disponibilidade, pelo seu empenho, pela sua energia e dinâmica, sempre pronta para seguir, para agir, para participar, para fazer. Cruzámo-nos em vários eventos, alguns dos quais na Casa do Professor (da ASSP), em Setúbal, obra de que ela foi também construtora e a que deu muito da sua disponibilidade.
Inevitavelmente, nas nossas conversas saltava sempre a figura de Sebastião da Gama, que foi seu colega na Faculdade de Letras e que lhe escreveu um poema para o seu livro de curso (Finalistas de Letras – Curso de 1946-1950), de quem sempre falou com carinho e desvelo, relembrando momentos, versos e sorrisos.
A Dra. Irene Alves trocava impressões, opinava, aconselhava, comentava, sempre num respeito por ouvir também e por saber o que podia ser dito pelos outros e o que podia ser feito. Já fora da sua carreira profissional, muitas vezes a ouvi a sugerir práticas – as “boas práticas” agora descobertas para todas as áreas! –, a querer saber como reagiam os alunos a determinadas situações, a import(un)ar-se com a necessidade da leitura, não só de clássicos, mas sobretudo de clássicos. Senhora de vasto saber, ciente de ter marcado o tempo e de para ele ter contribuído de maneira intensa, a Dra. Irene Alves deixou saudades. Há uma semana, partiu. E a memória ficou mais viva!
[Foto: reprodução do livro de curso da Dra. Irene Alves]

Marcos de uma semana em que não disse (1) – Sophia no Panteão Nacional



Gostei muito do texto de opinião, um quase manifesto ou uma quase exigência, assinado por José Manuel dos Santos no Público de domingo, 17 de Novembro (pg. 54), que alerta o leitor, o país, os responsáveis políticos – Assembleia da República, diga-se – para o imperativo de termos Sophia de Mello Breyner no Panteão Nacional.
O texto começa, de resto, com uma chamada de atenção para todos nós: “Não são os poetas que precisam de nós. Somos nós que precisamos deles e das suas palavras de vida e de morte. Somos nós que necessitamos das suas acusações e das suas celebrações, das cóleras e dos êxtases, dos anátemas e dos louvores, das profanações e das sagrações. Somos nós que necessitamos desse voo da voz, dessa veemência da vida, desse fogo da fronte. Nos grandes poemas dos grandes poetas, o mundo — ou a sua recusa — está perante nós e ficamos à altura da sua altura.” Um bom elogio para os poetas, uma boa lição para nós.
Depois, vêm as razões da proposta, centradas no cruzamento do estar de Sophia entre a palavra, o poema, a cultura e a cidadania. “A participação de Sophia na política fez-se das mesmas perguntas e das mesmas respostas de que a sua poesia se faz. É por isso que a coragem de Sophia era uma ética e a sua lucidez um compromisso com o mundo e com os homens que o habitam. É por isso que a sua morte foi um momento de despedida, de descoberta, de despertar. Ao vermos que a morte não prevaleceu sobre a sua obra, aprendemos que somos os herdeiros da sua palavra, da sua nobreza, do seu desassombro.”
O apelo de José Manuel dos Santos vai muito além do que poderia ser defender o poeta ou a sua obra. Encontra sentido para os tempos que nos invadem, para o exemplo e para a memória. Tudo associado às datas que passam em 2014 – os 40 anos sobre o 25 de Abril, os 10 anos sobre a morte de Sophia.
É que, na obra de Sophia, “a vida e a poesia não se separaram nunca e foram liberdade livre e justiça justa” e “no que escreveu e no que viveu, passa esse sopro de inteireza, de verdade e de audácia que a tornou um símbolo para todos.”

É bom que a proposta de José Manuel dos Santos seja tida em conta e que venha a ter um desfecho feliz. Seria uma excelente forma de celebrar a ética, de celebrar a arte, de apontar um caminho forte da identidade portuguesa.

Para a agenda: No centenário de Le Mattre de Carvalho



No centenário de Le Mattre de Carvalho, a LASA (Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão) e o MAEDS (Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal) promovem o "Retorno ao Paisagismo" para homenagear o pintor. A 30. Para a agenda.
Aditamento, em 26 de Novembro: A inauguração será às 18h00.

Para a agenda - Dina Barco e o diário da Sara



Dois anos depois de nos ter apresentado a personagem Sara às voltas com o seu diário, Dina Barco dá-lhe sequência, continuando a vida da jovem que se mostra. Desta vez, em Diário de Sara (quase irmã), a ser apresentado a 30, Sábado, pelas 17h30, no Clube Setubalense. Para a agenda!
Aditamento, em 26 de Novembro: A apresentação será às 21h00.

Para a agenda - A poesia de Maria do Carmo Branco



O rio que canto, título para poemas de Maria do Carmo Branco, em edição do Centro de Estudos Bocageanos. No dia 30, pelas 15h00, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal. Para a agenda!

sábado, 23 de novembro de 2013

Sebastião da Gama homenageado em concerto do Coral Infantil de Setúbal



Logo à noite, pelas 21h00, o Forum Luísa Todi, em Setúbal, acolherá o concerto “O Poeta da Arrábida”, que celebrará o aniversário do Coral Infantil de Setúbal. A interpretação musical estará a cargo da Banda da Armada, dirigida pelo 1º Tenente Músico Délio Gonçalves, e a interpretação coral vai competir ao Coral aniversariante, ao Coro Feminino TuttiEncantus, ao Coro do Conservatório Regional de Setúbal e ao Coro de Câmara de Setúbal. O roteiro da obra é da responsabilidade de João Reis Ribeiro, com poemas de Sebastião da Gama, e a autoria da composição musical é de Samuel Pascoal.
A Associação Cultural Sebastião da Gama procedeu à edição do roteiro, um opúsculo de 30 páginas, que inclui os poemas de Sebastião da Gama seleccionados e as partituras dos poemas que abrem e fecham o concerto, respectivamente, “Pequeno Poema” e “O Sonho”.
Mas o concerto de hoje tem uma história subjacente…
Quando celebrou o seu 30º aniversário, o Coral Infantil de Setúbal pretendeu levar a cabo um concerto de encerramento desse ano, em 2010, que homenageasse um valor da região de Setúbal, escolhendo a figura de Sebastião da Gama.
O roteiro para essa celebração, bem como a respectiva composição musical, foram efectuados, mas, por razões logísticas, esta actividade não pôde ser levada a cabo. Só agora este evento é possível, associado a um outro aniversário do Coral Infantil de Setúbal, quando se começa a celebrar o seu 34º ano de existência.
Sabe-se que a figura de Sebastião da Gama ultrapassa o epíteto de “Poeta da Arrábida” (haverá poetas de algum lado que não seja o universo?), mas, para quem vive aqui, nas margens da serra, o nome do poeta e o da montanha são inseparáveis. Por isso, mantivemos a ideia no título deste roteiro, construído sobre a biografia e sobre poemas do homenageado, numa tarefa a que a Associação Cultural Sebastião da Gama se aliou com gosto desde o primeiro momento. Afinal, a poesia relaciona-se com a música… como estabelece pontes com o silêncio… como celebra o concerto da contemplação! E Sebastião da Gama sabia tudo isso!...

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Sobre educação, com justiça e mercantilismo à mistura

O artigo de Francisco Teixeira, intitulado "Educação, justiça e mercado", saído no Público de hoje (pp. 50-51) bem merece ser lido pela análise feita, contributo para se entenderem as actuais ideias que pairam quanto à escola. Reproduzo a conclusão do texto, que pode ser lido na íntegra aqui.


domingo, 17 de novembro de 2013

Hoje é o Dia Mundial em Memória das vítimas da Estrada



Daniel Sampaio e as classificações dadas pelos "rankings" às escolas



"Classificar para quê?" é o que pergunta Daniel Sampaio na crónica hoje saída na revista do Público (pg. 40), texto com interesse para a reflexão sobre os rankings.

Manuel Carvalho e a escola (pública ou privada)


No Público de hoje (pg. ), Manuel Carvalho escreve sob o título "O vírus da insolvência das escolas públicas". Aqui reproduzo o texto que respeita ao tema da escola.


Como Terry Deary conta a Primeira Grande Guerra aos jovens...



Adjectivar a Primeira Guerra Mundial com o qualificativo “terrível” será talvez pouco. Mas, ao tê-lo feito dessa maneira, quando escreveu A terrível Primeira Guerra (Mundial), em 1998 (com tradução portuguesa em 2001, nas Publicações Europa-América), Terry Deary (n. 1946) terá pretendido justificar a entrada do tema e do título na série “História Horrível”, de que é autor, anunciada como “a História que não esconde as piores partes”. A colecção visa um público de jovens leitores e é recheada com ilustrações, que, no caso deste título, são devidas a Martin Brown (n. 1959).
O excerto que Deary escolhe para iniciar a obra é o testemunho de um soldado que esteve nas trincheiras, ali mesmo junto da designada “terra de ninguém”: “Corpos e pedaços de corpos, e coágulos de sangue, e um lodo verde metálico viscoso formado pelos gases explosivos flutuavam à superfície da água. Os nossos homens viviam e morriam ali, a poucos metros do inimigo. Agachavam-se por debaixo dos sacos de areia e escavavam abrigos nas paredes das trincheiras. Estavam infestados de piolhos. Se cavassem mais fundo para se protegerem melhor, as suas pás encontravam os corpos macios daqueles que tinham sido os seus amigos. Pedaços de carne, pernas com botas, mãos enegrecidas, cabeças sem olhos, caíam sobre eles quando o inimigo disparava contra a sua posição.” Ainda que não sendo revelada a identidade do autor desta descrição, ela não surpreende, pois traça um quadro que vários outros combatentes descreveram, designadamente alguns portugueses.
A abordagem da Primeira Grande Guerra nesta obra surge em capítulos alinhados ao ritmo dos anos em que ela decorreu, com títulos que são, eles próprios, uma leitura dos acontecimentos: “1914 – O ano do primeiro tiro”, “1915 – O ano da guerra total”, “1916 – O ano do Somme”, “1917 – O ano da lama”, “1918 – O ano da exaustão”. Cada uma das partes inicia-se com breve cronologia e o restante capítulo é ocupado com o relato de curiosidades e de pormenores sobre o conflito, sobretudo abordando as formas de viver, não só dos combatentes, mas também dos familiares e das populações, numa quase entrada pelo quotidiano de uns e de outros.
Ao longo da obra, o jovem leitor vai tomando contacto com a situação política europeia da época e com a divisão dos Estados participantes na guerra, com a vida militar, com os marcos dessa fase histórica e com muitas curiosidades sobre que se foi construindo o quotidiano. Mas o que predomina no livro, eivado de humor, é o que aflige o homem que combate na Frente (o soldado comum e não as chefias), independentemente do lado por que lute – são os medos, os hábitos, as crenças, os truques para a sobrevivência, com evidência para a necessidade de aprender a viver uma outra vida, assente em condições precárias, de improvisação e de perigo, frequentemente acompanhado pelas ratazanas e pelos piolhos. Simultaneamente, vão aparecendo referências quanto às formas de vida das famílias, quanto ao papel da mulher nesta guerra e quanto à maneira como a sociedade se foi fazendo sobre ausências ao longo de uma guerra que, em vez de ter sido resolvida em três meses (como era esperado no início), se prolongou por quatro difíceis anos.
Alguns testemunhos vão sendo invocados para este rol de informações e de pequenas histórias, intervalando com apontamentos sobre factos ou pormenores das vivências. Mas o mais importante testemunho é uma aprendizagem ou um alerta que surge no epílogo e relembra a história de um jovem soldado alemão que teve a sorte de não ter morrido quando um obus atingiu a trincheira onde ele e os seus camaradas se encontravam, aquando da batalha do Somme. Sobrevivente que foi, com muitos a caírem mortos ao seu lado, esse soldado ficou com leves arranhões na face e viria a marcar – e de que maneira! – a rota do século XX: era Adolfo Hitler. E, quase a concluir, refere Deary: “Houve muitas tragédias na Primeira Guerra Mundial. Quase todas as famílias em Inglaterra, em França, na Alemanha e na Rússia perderam alguém. Em qualquer cidade ou aldeia poderás ver os nomes dos mortos em monumentos de pedra. Muitos dos homens que se alistaram morreram juntos e deixaram as suas cidades natais desoladas. Mas a verdadeira tragédia não foi essa. A coisa mais cruel de todas foi que a Primeira Guerra Mundial não resolveu quaisquer problemas e não trouxe a paz. Conduziu à Segunda Guerra Mundial e a muito, muito mais miséria, morte e destruição.” Na origem deste segundo conflito do século XX esteve o tal soldado que escapou quase ileso da trincheira do Somme…
Esta conclusão do autor é o pretexto para a recomendação pedagógica com que o livro encerra: “A história pode ser horrível. Mas cada um de nós deve descobrir o monumento aos mortos da guerra mais próximo de onde vive, ir lá e ler os nomes. Depois deve dizer ‘Nunca mais’. Se toda a gente disser isso, com sinceridade, então as mortes não terão sido em vão.” Dois apelos, pois: o de respeitar a memória e a obrigação que todos temos de evitar que a paz seja apenas uma utopia.

sábado, 16 de novembro de 2013

Para a agenda - Surrealismo(s) em Portugal, em congresso



"Surrealismo(s) em Portugal", quando passam 60 anos sobre a morte de António Maria Lisboa, é o tema de congresso a ter lugar entre 18 e 22 de Novembro, em sessões que se desdobram pela Fundação Calouste Gulbenkian, pela Casa da Liberdade Mário Cesariny e pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. O programa, vasto, pode ser visto aqui. Para a agenda.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Para a agenda: "O poeta da Arrábida" que Sebastião da Gama foi



No 34º aniversário do Coral Infantil de Setúbal, um concerto sobre "O Poeta da Arrábida" que foi Sebastião da Gama, com guião de João Reis Ribeiro e música de Samuel Pascoal. No Forum Luísa Todi, a 23. Os coralistas serão acompanhados pela Banda da Armada. Para a agenda.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Para a agenda: Em busca de Cetóbriga, com Carlos Tavares da Silva



A arqueologia e a ponte entre Setúbal e Cetóbriga. Por quem sabe a história que se nos esconde e que tem de ser cavada. Carlos Tavares da Silva e a localização de Cetóbriga. A 16, na Casa da Cultura, em iniciativa do Centro de Estudos Bocageanos. Para a agenda.

Para a agenda: Teatro no Espaço Fontenova



Várias boas propostas na arte dramática ao longo de todo o mês de Novembro. Para a agenda!

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Para a agenda: Manuel Bola, o segundo livro de poemas



Depois que, em 2005, publicou os poemas de Sem amor, eis que Manuel Bola (o actor Carlos Rodrigues) regressa com Poemas a soar a manhã. Na sexta, à noite, com a participação de José Nobre. Para a agenda.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Para a agenda - Ambiente e comportamento humano por José Palma Oliveira


O homem e o ambiente - uma relação para (des)agradar? José Palma falará sobre o assunto no MAEDS, na sexta-feira, 15. O título da palestra alicia: "História do ambiente e comportamento humano: a (in)evitável destruição?" Uma pergunta para todos nós. Para a agenda!

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A propósito do Dia do Armistício: Nos campos da Flandres...


Aqui se reproduz o poema "In Flanders fields", do canadiano John McCrae (1872-1918), inicialmente intitulado "We shall not sleep", em memória de todos os que caíram na Primeira Grande Guerra:


In Flanders Fields


In Flanders fields the poppies blow
Between the crosses, row on row,
That mark our place; and in the sky
The larks, still bravely singing, fly
Scarce heard amid the guns below.

We are the Dead. Short days ago
We lived, felt dawn, saw sunset glow,
Loved and were loved, and now we lie,
In Flanders fields.

Take up our quarrel with the foe:
To you from failing hands we throw
The torch; be yours to hold it high.
If ye break faith with us who die
We shall not sleep, though poppies grow
In Flanders fields.

domingo, 10 de novembro de 2013

Fernando Madrinha e o negócio do ensino (a propósito de uma reportagem da TVI)


A reportagem da TVI transmitida na semana passada, assinada por Ana Leal e por Gonçalo Prego, sobre o financiamento do Estado ao ensino particular não pode deixar ninguém indiferente. Absolutamente ninguém. Quer pelo que se fica a saber, quer pelas injustiças cometidas, quer pelas questões ideológicas subjacentes ao que está a acontecer, quer pela pobreza de argumentos de muitos dos envolvidos (dados assim como quem assobia para o lado), quer por todos nós, por este Portugal que é o meu país.
Fernando Madrinha, colunista do Expresso, na edição de ontem, acentuou a tónica da "promiscuidade". Vale a pena ler.


sábado, 9 de novembro de 2013

Rostos (193) - "Um grande passo para o homem", de Victor Lages



"Um grande passo para o homem", excerto de mural de mosaicos, por Victor Lages (2001), na Amadora

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Ovelhas da Quinta do Anjo e de Palmela



Quando, hoje, circulava de Quinta do Anjo para Palmela, eis que o rebanho ocupava a estradazinha... e foi a oportunidade para a foto imediata.
Lembrei-me do afecto que prendia António Matos Fortuna a estas terras, do que sobre elas escreveu e investigou, do destaque que lhes deu em páginas de ouro. E... por causa das ovelhas e dos pastores, não se esqueceu o historiador Fortuna de chamar à sua terra de Quinta do Anjo a "capital da ovelharia de Entre Tejo e Sado". Lembranças... e saudades!...

sábado, 2 de novembro de 2013

Para a agenda: as histórias que sobre Azeitão contou o padre Manuel Frango de Sousa


Azeitão a nossa terra é o título do livro que vai ser apresentado em 8 de Novembro, pelas 21h30, na sede da Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense, em Azeitão. Da autoria de Manuel Frango de Sousa (1929-2000), a obra recolhe os textos do boletim com o mesmo nome que o autor, pároco em Azeitão entre 1963 e 2000, foi publicando, policopiado, e distribuindo aos paroquianos com o resultado das investigações que ia fazendo sobre factos históricos ligados a Azeitão.
O livro tem o apoio do mensário Jornal de Azeitão (da Santa Casa da Misericórdia de Azeitão) e da autarquia e a publicação deve-se a um grupo de azeitonenses interessados em preservar as memórias locais e a obra de Manuel Frango de Sousa.
Para a agenda. 

Primeira Grande Guerra com o "Expresso" de hoje



A colecção “Grandes Batalhas da História de Portugal”, que o semanário Expresso tem vindo a oferecer aos leitores desde há sete semanas, chega hoje ao fim, com a obra Grande Guerra 1914-1918, assinada por Aniceto Afonso.
Quando estamos a pouco tempo de começar a assinalar o centenário do início dessa hecatombe, em que Portugal participou, é bom relembrar e contextualizar o que foi a entrada do nosso país no conflito mundial e Aniceto Afonso tem sido um estudioso da questão desde há muito.
Em 120 páginas, temos o essencial, não faltando a notícia do envolvimento de Portugal em África e na Flandres, a história militar, a estratégia, o quotidiano na frente de guerra, as memórias de quem por lá andou, os olhares da política da altura, a história do último fuzilado português, a inevitável batalha do Lys e uma cronologia orientadora no final do volume.
Um bom pretexto para o leitor se encontrar com uma fatia da memória de Portugal.