quarta-feira, 19 de julho de 2017

Para a agenda: Os 210 Combatentes de Setúbal na Grande Guerra vão ter a sua história



Diogo Ferreira e Pedro Marquês de Sousa, um setubalense e um azeitonense, são os autores de Os Combatentes do Concelho de Setúbal na Grande Guerra em França (1917-1918), que, em edição do Núcleo de Setúbal da Liga dos Combatentes, vai ser publicamente apresentado em 25 de Julho, pelas 11h00, no antigo Quartel do 11, em Setúbal, justamente o dia em que se assinalarão os 100 anos sobre a partida dos mobilizados do Regimento de Infantaria 11 para a Flandres.
É o percurso em torno de 210 vidas que se arriscaram nessa (também) aventura que foi a Grande Guerra. É o reconhecimento e a homenagem ao sofrimento.
Para a agenda!

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Para a agenda: "Terra", uma exposição na Comporta



"Terra" é título de exposição para as obras dos artistas Maria Santo, Francisco Borba e Graça Pinto Basto, na Casa da Cultura, na Comporta, a abrir amanhã, pelas 19h00. Cerca de três semanas para visitar esta exposição, numa programação intensa para este tempo de férias que a Casa da Cultura leva a efeito. Para a agenda!

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Para a agenda: Ventura Terra, o arquitecto em Setúbal



Absolutamente imperdível! Foi inaugurada hoje, na Galeria Municipal do 11, na Avenida Luísa Todi, a exposição "Ventura Terra - O Arquitecto em Setúbal", quando se completa o ano em que foram celebrados os 150 anos sobre o seu nascimento, uma mostra que pode ser visitada até 26 de Agosto.
O visitante confronta-se com o tempo, com marcas da história da arquitectura em Portugal, com a obra de um dos mais inovadores arquitectos portugueses, com a delicadeza do traço que se estendeu um pouco por todo o país, englobando casas de habitação, construção religiosa, edifícios institucionais.
Através desse passeio no tempo e na obra do arquitecto de Seixas (que viveu 53 anos, com uma obra vasta que lhe ocupou apenas 26 anos), o visitante chega a Setúbal, que recebeu dele o estabelecimento balnear da Empresa Setubalense de Banhos, com começo de utilização em 1903, uma obra que teve pouco tempo de vida e que hoje só podemos "ver" através da documentação que a suportou e divulgou.
Retrato de uma obra e de uma época, esta exposição é de visita obrigatória. Pela história da arquitectura do século XX, pelo conceito de cidade, pelo percurso de um nome incontornável, pela marca na história local de Setúbal. Para a agenda!

quarta-feira, 12 de julho de 2017

O Sado mostrado e contado por Rui Canas Gaspar



Rui Canas Gaspar leva já uma dezena de títulos publicados sobre a história local de Setúbal, tendo o mais recente sido publicado há dias sob o título curto, mas nada lacónico, Sado (Setúbal: ed. Autor, 2017), obra que conta histórias ligadas ao rio que em Setúbal bordeja a Arrábida e se encontra com o Atlântico.
Se um rio não tem outra história que não aquela que a Natureza lhe dá e permite, é em torno do rio que se constrói um universo de histórias ligadas às gentes e às vidas. Desde a serra da Vigia (em Ourique) até Setúbal, o Sado corre de sul para norte num percurso de 180 quilómetros. E é a partir da nascente que as duas centenas de páginas deste livro vão acompanhar um caudal forte e interessante de narrativas, umas fazendo já parte da investigação histórica, outras resultantes de visitas, conversas e contactos, muitas vezes enriquecidas com a cor etnográfica ou regional.
À medida que vamos lendo os textos, temos a noção de que eles foram construídos ao ritmo do apontamento ou da crónica, abordando temáticas e histórias que têm o rio como denominador comum. No livro, essa unidade é sublinhada pelo facto de a narração ser atribuída a um “eu” que é a personificação do próprio rio e vai conduzindo uma história maior em que o narrador se assume também como a personagem principal à sombra da qual tudo vai acontecendo.
Os quadros que vão passando pela biografia (chamemos-lhe assim) do rio cruzam-se no espaço e no tempo - se o espaço é o da sua corrente, o do tempo parte dos fenícios, dos romanos e dos mouros para chegar até ao século XXI, à nossa contemporaneidade. Passeia o leitor pelo Alentejo (ou não viesse o rio desde Ourique e não passasse em Alcácer do Sal), pelos planos de obras públicas que ao Sado estiveram ligados (o célebre canal a ligá-lo ao Tejo, que nunca foi construído, mas foi planeado; o sistema de irrigação e as barragens), pela vida selvagem que lhe está ligada, pelas produções que dele resultam (o arroz, o sal, a pesca, a ostreicultura), pela etnografia (portos palafíticos, construções típicas), pelo turismo (Tróia), pelos moinhos de maré, pela agricultura (herdades de Gâmbia e do Zambujal), até chegar ao Atlântico, pretexto para se mergulhar em Setúbal e em realizações recentes ligadas ao Sado, como o monumento aos golfinhos recentemente inaugurado ou o facto de o rio ter levado Setúbal a membro do Clube das Mais Belas Baías do Mundo.
Por este caminho de histórias, há momentos em que se enaltecem personalidades que tiveram algo a ver com aquilo que é a identidade do Sado, como João Barbas (que recuperou galeões e os pôs ao serviço do lazer e da pedagogia) ou José Viriato Soromenho Ramos (que foi o obreiro da chegada de Setúbal ao Clube das Mais Belas Baías); há momentos em que se revelam pormenores como aquela que terá sido a primeira homenagem ao planetário Mourinho (caso do galeão “Zé Mário”, que deve o nome à criança nascida em 1963, por iniciativa do pai, Félix Mourinho, membro da sociedade que nessa altura adquiriu a embarcação) ou a iniciativa da Câmara de Alcácer de recuperar o “Amendoeira”, um barco naufragado; há momentos em que é evidenciada a experiência do autor (como, logo no início, no relato da chegada ao ponto onde nasce o rio, pelas conversas com os locais); há momentos em que as crónicas adquirem alguma cor local, quase em jeito de reportagem (como o cacarejar das galinhas ou o miar da gataria testemunhados na visita à D. Manuela, na Gâmbia); há momentos em que surge evidente o apelo à preservação do ambiente (seja quando se fala dos mariscadores, seja quando é feita referência aos cuidados a ter com os golfinhos).
Curiosamente, o livro inicia-se e conclui-se com poesia em que o Sado é protagonista ou motivação: na abertura, é o soneto de Bocage que rompe com o verso “Eu me ausento de ti, meu pátrio Sado”; a fechar, é o poema que suporta a canção “Rio Azul”, da autoria de Laureano Rocha e Mário Regalado. Se estas marcas validam a faceta poética do rio e das emoções que lhe estão associadas, bem poderia ter sido trazido também o poema do médico transmontano Cabral Adão que definitivamente baptizou o Sado como o rio “azul”... e, já agora, por referências culturais às margens do Sado, também poderiam ser lembrados os nomes de duas crianças que cresceram a ver o rio e muito viriam a destacar-se na cultura portuguesa - Bernardim Ribeiro, no Torrão, e Pedro Nunes, em Alcácer do Sal.
Esta obra de Rui Canas Gaspar lê-se de um fôlego, sempre na procura de elementos novos ou de confirmação de histórias. Dotado de uma escrita acessível, o seu estilo corre facilmente por estar próximo dos contadores de histórias, muito mais preocupado com a passagem de testemunhos a propósito do rio e das vidas que lhe estão ligadas do que com a caução do documento histórico ou das fontes. Uma forma fácil de chamar a atenção para a necessidade que todos temos de reparar no rio e no que ele nos faz!

domingo, 9 de julho de 2017

Para a agenda: Ventura Terra em Setúbal




O arquitecto Miguel Ventura Terra (1866-1919) vai ter exposição em Setúbal, a inaugurar em 14 de Julho, pelas 18h00, na Galeria Municipal do antigo Quartel do 11 (Escola de Hotelaria e Turismo), sob o título "Ventura Terra - O Arquitecto em Setúbal".
A anteceder a abertura da mostra, haverá um ciclo de palestras, pelas 16h00, sob a responsabilidade de Fernando António Baptista Pereira, Ana Isabel Ribeiro, Inês Gato de Pinho e Alda Sarria Terra, e a apresentação do livro juvenil Açor - O Cão do Miguel Ventura Terra, de Gisela Silva, por Fernando Capela Miguel.
Arquitecto nascido em Seixas, no concelho de Caminha, Ventura Terra Deixou espalhadas muitas obras em Portugal, depois de ter estudado no Porto e em França, cujo governo reconheceu oficialmente o valor do arquitecto caminhante devido ao sucesso obtido no país que o acolheu.
A reconstrução do Palácio de S. Bento, a que Ventura Terra não assistiu devido a morte prematura, poderá ser a sua maior obra, mas outras atestam o seu mérito. Lisboa parece ser a cidade que mais património dele recebeu: quatro prédios galardoados com o Prémio Valmor em 1903, 1906, 1909 e 1911, além de uma Menção Honrosa em 1913; os liceus Camões (1907) e Pedro Nunes (1908); a Maternidade Alfredo da Costa (1908) e o Teatro Politeama (1912). No Minho, há o santuário de Santa Luzia (1903), em Viana do Castelo, e o restauro do Palácio da Brejeira, em Monção. Sobre a obra de Ventura Terra, afirmou Rui Mário Gonçalves que contém "uma renovação da linguagem arquitectónica, partindo de ultrapassados elementos neo-românticos e neo-clássicos, para tentar pô-los ao serviço de novos objectivos."
Setúbal teve também a marca de Ventura Terra no estabelecimento de banhos levantado a partir de projecto do arquitecto seixense no início do século XX, obra que foi estudada por Inês Gato de Pinho no livro Vilegiatura Marítima em Setúbal (Setúbal: LASA, 2010).

Para a agenda - Bocage homenageado em antologia poética



A Casa da Poesia de Setúbal vai apresentar a sua primeira antologia poética sob o tema "Homenagem a Bocage nos 250 anos do seu nascimento", evento que acontecerá na Biblioteca Municipal de Setúbal em 15 de Julho (sábado), pelas 16h00. Contacto com os poetas antologiados, cruzamento com Bocage. Para a agenda!

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Para a agenda: Ver "Tribos", de Samuel Malaia



Samuel Malaia (setubalense, que expôs pela primeira vez em Setúbal em 1989) apresenta "Tribos", exposição de desenhos a esferográfica e tinta-da-china, no Museu do Trabalho, em Setúbal, amanhã, a partir das 16h00, exposição que atravessará o verão setubalense até 17 de Setembro.
A abertura da exposição vai ser ainda pretexto para a apresentação do livro Um Velho na Praia, de Cuca, na colecção "Poesia no Bolso", ilustrado por Samuel Malaia.
Para a agenda!

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Para a agenda - "Todos os portos", de Ivo



"Todos os portos", de Ivo, é a proposta da Casa da Cultura, em Setúbal, no domínio da pintura, a partir de 8 de Julho.
Na apresentação da obra de Ivo, feita por José Teófilo Duarte, é dito: "É de pintura que falamos. Pintura que marca um tempo sempre em mudança. Ivo fez parte, com Manuel João Vieira, Pedro Portugal, Xana, Pedro Proença e Fernando Brito, do grupo — Homeostéticos — que abanou e deu pano para mangas no bulício artístico que animou o país Portugal nos anos que se seguiram à instalação da democracia. Exposições, performance, música, provocação, contestação, tudo foi trazido para este terreno. Posteriormente, todos estes artistas fizeram um percurso que se conhece e reconhece. Todos se inscrevem nos mais originais registos da arte portuguesa contemporânea."
Para a agenda!

domingo, 2 de julho de 2017

Para a agenda - Rui Canas Gaspar conta histórias do Sado



Rui Canas Gaspar tem vindo a coligir histórias ligadas à região de Setúbal numa bibliografia de vários volumes - Arrábida Desconhecida (2012), Francisco Finura (2014), Setúbal - Gente do Rio, Homens do Mar (2014), Histórias, Coisas e Gentes de Setúbal (2015), Mistérios da Arrábida (2016) e Tróia - Um Tesouro por Descobrir (2016).
A esta série vai juntar-se, em 8 de Julho (sábado), o título Sado, com apresentação marcada para as 18h00, na Casa da Baía. Histórias ligadas ao rio, histórias do rio. Para a agenda!

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Filatelia evoca participação portuguesa na Grande Guerra



A participação portuguesa na Grande Guerra (1914-1918) é tema de uma emissão filatélica promovida pelos CTT com data de hoje.
Esta evocação é constituída por três selos, cada um deles homenageando um dos ramos das forças armadas que, em nome de Portugal, intervieram nas operações: um, de 0,50 €, evocando a força aérea, em que se destacam a figura do tenente Lello Portela (que participou no maior número de missões de combate e teve maior tempo de permanência no "front") e a imagem do aeroplano SPAD VII; um, de 0,63 €, lembrando a participação da marinha, mostrando o comandante Afonso de Cerqueira (que chefiou o Batalhão Expedicionário da Marinha do Sul de Angola) e o NRP Adamastor; um, de 0,85 €, destacando o exército, pondo em relevo a figura do soldado Aníbal Milhais (conhecido por "Milhões", herói do 9 de Abril) e um momento da instrução do CEP.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Para a agenda - Elmano Amaral apresenta poemas



Poemas sob o título Maresia, de Elmano Amaral, têm apresentação marcada para sábado, 1 de Julho, na Biblioteca Municipal de Setúbal, pelas 16h00, em actividade organizada pela Casa da Poesia de Setúbal. Para a agenda!

domingo, 25 de junho de 2017

Memória: Isidoro Fortuna (1932-2017)



Conheci Isidoro Fortuna há não sei quantos anos. Quase trinta, talvez. Terá sido através do seu irmão António Matos Fortuna? Terá sido por via do seu amigo António Rodrigues Correia? Não sei, mas qualquer um deles poderia ter sido o amigo que nos aproximou...
Conversei com ele muitas vezes. Sobretudo para saber e para resolver coisas da minha ignorância e das minhas possíveis descobertas. E nunca Isidoro Fortuna se recusou a atender-me.
Ouvi-o para fazer reportagens, para aprender, para perceber o que é “ser montanhão” (nesta Quinta do Anjo, no concelho de Palmela, isso é importante e é causa de identidade), para saber o que é a raça da ovelha saloia, para aprender como se fazia o queijo de Azeitão e o queijo fresco, para conversar sobre a história e as histórias de Quinta do Anjo. E o que aprendi foi muito mais do que aquilo que eu alguma vez lhe poderia dar ou, pelo menos, agradecer.
Um dia, meus pais, vindos do Minho, estiveram por aqui num fim de semana. Tendo feito a sua vida na agricultura, achei sensato levá-los a conhecer Isidoro Fortuna. Vieram entusiasmados. E, sempre que eu os visito lá no Minho vianense, ainda perguntam por “aquele senhor que falou das ovelhas com o coração chamado Isidoro”... Lá lhes terei de dar a notícia, claro.
No sábado, dia em que Isidoro Fortuna foi levado para o cemitério da aldeia, fiz-lhe a derradeira visita. E não pude deixar de falar com a esposa, Maria Amália. Quando lhe apresentei os sentimentos, logo ela me respondeu: “Que são de paz!”. Exactamente como foi Isidoro Fortuna, que nunca vi zangado, mas sempre disponível, mesmo naquilo que poderia ser mais crítico. Que me contou da sua acção em prol da paróquia; em defesa da raça, do apuramento e da preservação das ovelhas; em afecto pelas coisas da Quinta do Anjo... sempre numa linguagem próxima, prática e pragmática, boa! Sobretudo boa. Porque a imagem que dele guardo é a de um “bom” homem, daqueles que são capazes de iluminar as vidas, daqueles que achamos que são umas bibliotecas de saber e de sentimentos. Ficar-lhe-ei sempre grato por isso!

"Vale a pena?" - Inês Fonseca Santos em conversa com escritores



“Este livro é o resultado de uma série de conversas que tive com escritores sobre os seus modos de olhar o mundo, de o imaginar, sobre os seus modos de criar e sobre as condições em que criam. Não é, por isso, um estudo sobre o funcionamento do mercado editorial, nem um esboço sobre o panorama da situação actual portuguesa no que à publicação de livros diz respeito.” Assim começa a “Nota Prévia” de Inês Fonseca Santos ao seu livro Vale a Pena? - Conversas com Escritores (Col. “Retratos da Fundação”. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2017), em que a palavra “pena” surge em itálico, a chamar a atenção para o jogo de ideias que a palavra permite, entre o trabalho e o instrumento de escrita.
Parceiros de conversas foram Luís Quintais (n. 1968), António Mega Ferreira (n. 1949), Álvaro Magalhães (n. 1951), Mário de Carvalho (n. 1944), António Cabrita (n. 1959), Afonso Cruz (n. 1971), Helder Macedo (n. 1935), Paulo José Miranda (n. 1965), Catarina Sobral (n. 1985), Miguel Real (n. 1953) e Patrícia Portela (n. 1974), com entradas de Manuel António Pina, Eduardo Lourenço e de Alexandra Lucas Coelho e referências a muitos nomes do universo da escrita (Virginia Woolf, Paul Valéry, Jorge Luis Borges, Arturo Pérez-Reverte, Fernando Pessoa, Quino, Italo Calvino, José Cardoso Pires, Saramago, entre outros).
Poderá o leitor esperar resposta à pergunta que configura o título deste resultado de conversas, em género de reportagem desenvolvida? No final, é a própria autora que responde: “Não se espere, neste último capítulo, uma resposta. Para compor este livro, escolhi conversar com escritores que respondem às perguntas com outras perguntas. Por isso, se peço que me digam o motivo que os levou a escrever ou o motivo por que continuam a escrever, uns falam-me de revoluções e leituras, outros de rimas adolescentes e acasos... Recolho, portanto, a circunstância, não tanto o motivo, que todos sabemos insondável.”
Em 1985, o Libération publicou, em número excepcional (Março), a revista “Pourquoi écrivez-vous?” (retomando a ideia que a revista Littérature já tinha feito em 1919), reunindo as respostas recebidas de 400 escritores de 80 países, aí se contando os portugueses Augusto Abelaira, António Alçada Baptista, Almeida Faria, Agustina Bessa-Luís, José Cardoso Pires, Vergílio Ferreira, Lídia Jorge, António Lobo Antunes, Fernando Namora e José Saramago. Se a pergunta era simples, a resposta não o era tanto assim - e, por isso, os organizadores, Daniel Rondeau e Jean-François Fogel, concluíam a sua nota de abertura desta maneira: “La question n’est pas simple. La plupart des écrivains ont voulu faire plus qu’y répondre: la dominer. C’est pourquoi cette enquête est plus qu’un atlas littéraire ou un autre état des lieux. C’est un exceptionnel auto-portrait de la littérature d’aujourd’hui. Les écrivains s’écrivent. Tout va bien.” Na publicação francesa, não houve mediação nem filtros e os escritores tiveram via aberta (apenas cerca de uma vintena de depoimentos não tiveram publicação integral por se aproximarem mais do ensaio sobre literatura); no trabalho de Inês Fonseca Santos, a selecção dos segmentos e a montagem do “puzzle” ficou a cargo da autora. Contudo, a pergunta - como foi feita em francês ou como foi apresentada em português - nunca encontrará uma resposta óbvia, muito embora as justificações dadas possam permitir a construção de retratos; assim, o Libération concluiu que “les écrivains s’écrivent” e Inês Fonseca Santos remete-nos para o “insondável” do motivo - respostas mais próximas do que parece...
A matéria recolhida deu para cinco capítulos (e conclusão), todos eles abordando questões tão pertinentes quanto o papel e o reconhecimento do intelectual, as condições para se ser escritor, a leitura e a formação do escritor, a necessidade de uma “vida dupla” do escritor (a profissão de que viver e a criação), o mercado livreiro e os prémios literários e o papel dos leitores. No seu conjunto, uma visão multifacetada sobre a condição e a situação do escritor em Portugal. Ou de alguns escritores.
Há, pelo menos, duas certezas nesta teia que Inês Fonseca Santos construiu, ambas dadas por textos literários citados: a primeira, logo no início do livro, com o poema “A mão”, de Wislawa Szymborska (1923-2012, Nobel da Literatura em 1996), a propósito da criação e dos efeitos da escrita («Vinte e sete ossos, / trinta e cinco músculos, / cerca de duas mil células nervosas / em cada uma das pontas dos cinco dedos. / É quanto basta / para escrever Mein Kampf / ou A Casinha do Ursinho Puff.»); a segunda, ainda relacionada com a criação e também com a obra, poema devido a Manuel António Pina (1943-2012), que encerra o livro - «Senhor, permite que algo permaneça, / alguma palavra ou alguma lembrança, / que alguma coisa possa ter sido / de outra maneira, / não digo a morte, nem a vida, / mas alguma coisa mais insubstancial. / Se não para que me deste os substantivos e os verbos, / o medo e a esperança, / a urze e o salgueiro, / os meus heróis e os meus livros?» Bela forma de concluir um livro que, a partir de perguntas, deixa perguntas para que cada qual construa as suas respostas ou apenas porque a resposta é uma outra pergunta...

Sublinhados
Reconhecimento - “Qualquer chefe cozinheiro ou qualquer modista ou coisa parecida é mais importante do que um professor, e os professores são um dos aspectos da representação social do saber; o professor tem saber, mas é desvalorizado. E não são só os professores a serem desvalorizados; são desvalorizados os escritores, os cientistas, os pintores, os artistas das mais diversas áreas... Isto porquê? Porque o predomínio é o do negócio, o da traficância, que joga com o recurso aos impulsos mais básicos, mais primários, mais simples.” (Mário de Carvalho)
Surpreender o leitor - “As boas narrativas são aquelas em que o final desvia uns milímetros a expectativa do leitor. Não desvia completamente para não defraudar o leitor, mas desvia o suficiente para o surpreender, para o intrigar, para o espantar.” (Catarina Sobral)
Leitura e escrita - “A leitura é a grande escola da escrita. O que não quer dizer que não tenha havido notáveis escritores que tenham lido pouco. (...) É no acumular da leitura que vamos encontrando, e não é racionalmente, a nossa voz, feita de uma pluralidade de vozes. (...) A escrita é sempre tudo aquilo que lemos mais a diferença.” (António Mega Ferreira)
Ser escritor - “O escritor é, por essência, o herdeiro do intelectual dos séculos XVIII e XIX. Não é um profeta, mas, não raro, intui os caminhos negativos atravessados pela sociedade, denunciando-os, contribuindo para os corrigir. Não é um justiceiro, mas revolta-se contra desigualdades gritantes e apresenta alternativas sociais mais justas. Não é um sonhador, mas sofre de profundas doses de lirismo que humanizam as leis sociais.” (Miguel Real)
Literatura - “Precisamos da literatura, ou não continuaremos a ser humanos. Em tudo, encontramos linguagem. Talvez o apocalipse anunciado seja só uma provocação e uma orientação para se discutir o seu novo lugar na contemporaneidade, se é que ainda lhe resta algum lugar; e, ao mesmo tempo, apontar-lhe uma saída, a de uma outra forma de existir, nem que seja apenas resistindo.” (Álvaro Magalhães)