terça-feira, 26 de setembro de 2017

Setembro, mês de Bocage (26)


Bocage na Biblioteca Municipal de Setúbal
(foto de Lígia Águas)

Memória: D. Manuel Martins (1927-2017)




Dos 90 anos de D. Manuel Martins se poderá dizer que integraram uma vida repleta, pelo menos no que a nós nos foi permitido observar. Mas foi sobretudo uma vida de compromisso e de dedicação, de boa e oportuna provocação e inquietação. Dir-se-á que não fez mais do que aquilo que devia. É verdade, mas os homens homenageiam-se porque fazem o que devem (e a isso se dão) e, por isso mesmo, devem ser lembrados como exemplo.
Partiu anteontem, desceu hoje à terra e as saudades do tempo em que o ouvíamos ou em que com ele pudemos privar são já muitas. Estou grato por o ter conhecido e por ter sido o “meu” bispo. Pelas histórias de que foi protagonista, sempre mostrando o lado bom e sempre questionando o nosso estar; pelas verdades que apregoou, comentou e ensinou; pelas tomadas de posição abertas, claras (recordo de imediato e de memória a entrevista em que, estando o caso de Timor ao rubro, dizia ao jornalista Armando Pires: “Se Timor morrer como povo, será por nossa culpa, por nossa tão grande culpa”); pela igreja que quis que a comunidade sadina fosse e pela universalidade por que sempre pugnou; pelos textos que escreveu, cheios de uma simplicidade transbordante e em torno de verdades fundamentais. E ainda, a título pessoal: pela confiança que demonstrou ao convidar-me para ser correspondente da Renascença para a vida da Igreja da diocese (cargo que desempenhei durante quase dois anos), pela amizade com que me distinguiu, pelas conversas (poucas) que tivemos, pelo incentivo ao trabalho em projectos em que me envolvi (foi insistente o entusiasmo de D. Manuel em acompanhar o que se ia fazendo a propósito de Sebastião da Gama). Tenho de terminar como comecei: estou-lhe grato pelo que com ele aprendi. Obrigado, D. Manuel Martins!

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Setembro, mês de Bocage (25)


Bocage (e outros) em capa de protecção para livros, em cabedal

domingo, 24 de setembro de 2017

Setembro, mês de Bocage (24)



Bocage pelo chão de Setúbal (Setembro de 2016)

Sebastião da Gama: Protocolo de divulgação



Na reunião pública de 20 de Setembro, a Câmara Municipal de Setúbal aprovou texto de protocolo visando a divulgação da obra e da memória de Sebastião da Gama e de Joana Luísa da Gama, a celebrar entre a Câmara Municipal de Setúbal, a Junta de Freguesia de Azeitão, a Associação Cultural Sebastião da Gama, a Universidade Aberta (com a Cátedra Infante Dom Henrique para os Estudos Insulares Atlânticos e a Globalização, entidade coordenadora do Acordo), o Instituto Europeu de Ciências da Cultura Padre Manuel Antunes e o Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (CLEPUL).
O protocolo, que tem assinatura prevista para breve, contempla várias actividades, como se pode ler na notícia reproduzida acima, publicada ontem no semanário Sem Mais. Uma boa oportunidade para a memória de Sebastião da Gama, para a identidade cultural da nossa região e para a cultura portuguesa!

sábado, 23 de setembro de 2017

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Setembro, mês de Bocage (22)



Bocage no teatro - "A Noite dos Poetas", de João Natale Netto, pelo TAS, no momento em que o brasileiro Olavo Bilac e o português Bocage "se encontraram"
(Pode ser vista hoje, amanhã e nos dias 29 e 30, na Casa Bocage)

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Setembro, mês de Bocage (21)



Bocage e o humor, no blog "As minhas ilustrações"

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Para a agenda: "EmCante", de Joaquim Rosa



O Museu do Trabalho, em Setúbal, apresenta "EmCante", exposição de pintura de Joaquim Rosa. A partir de 23 de Setembro e até 2 de Dezembro. Integrado nas Jornadas Europeias do Património. Para a agenda!

Para a agenda: Alfredo Barroso em Setúbal



A opinião de Alfredo Barroso na agenda "Muito Cá de Casa", a propósito de um livro - Corações de Pedra: A Maldição Neoliberal - e da actualidade, com apresentação a cargo de Alice Brito e moderação de José Teófilo Duarte. Na Casa da Cultura, em 22 de Setembro, sexta, pelas 22h00. Para a agenda!

Para a agenda: Conversa com vista para o Sado



O programa "Sextas Arte e Ciência", promovido pelo Synapsis, começa nova temporada com temas em torno do Sado, sob o sugestivo título "Conversa com vista para o rio". Os intervenientes convidados têm leituras próprias e vão partilhá-las: Alberto Pereira, Eduardo Carqueijeiro, Nuno David e Salvador Peres alimentam a sessão. Filmes, palavras e opiniões, com o Sado por fundo. Na Biblioteca Municipal de Setúbal, em 22 de Setembro, sexta, pelas 21h30. Para a agenda!

Setembro, mês de Bocage (20)


Bocage cabeça de cartaz - página de facebook

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Setembro, mês de Bocage (19)



Bocage vitoriano (do blog "Coluna Vertical")

Para a agenda: João Santiago, o segundo livro de poesia



João Santiago (n. 1945) partilha com os leitores o seu segundo livro de poesia, Poemas da Asa e da Pedra, em apresentação que terá lugar no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal, em 21 de Setembro, pelas 17h30, evento promovido pela UNISETI (Universidade Sénior de Setúbal) e pela delegação regional da ANAFRE.
O seu anterior volume de poesia, A Memória e a Utopia, foi publicado em 2009 pelo Centro de Estudos Bocageanos. É desta obra o poema que se reproduz, intitulado "O Homem e o seu Tamanho":  "Entre / a memória e a utopia / é o caminho. // Tantas são as vezes / em que um homem / se dá / palmilhando penhascos / de solidão. // Mas é daí / que tira a vista / para o infinito."
Para a agenda!

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

domingo, 17 de setembro de 2017

Setembro, mês de Bocage (17)



Bocage na toponímia - Rua do Bocage, em Macau (foto da net)

sábado, 16 de setembro de 2017

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Setembro, mês de Bocage (15)



Dia de Bocage, da Cidade e do Concelho
Cartaz das comemorações bocagianas em 2017, em Setúbal

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Setembro, mês de Bocage (14)


Bocage e a Musa no chão de Setúbal (Setembro de 2016)

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Setembro, mês de Bocage (13)


Bocage, no Café Bocage, em Saint Gilles (Bélgica)

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Para a agenda: Almenara - Um ritual entre Palmela e Lisboa



Palmela e Lisboa vão assinalar "Almenara", lembrança de Nuno Álvares Pereira que, a partir do castelo de Palmela, através do fogo, anunciou aos companheiros de Lisboa a sua proximidade, assim incentivando à defesa da capital.
Para a agenda! Com as recomendações que a organização faz.


Setembro, mês de Bocage (12)


Retrosarias Bocage, em Setúbal - desenho sobre azulejo de Mariana Ricardo

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Para a agenda: TAS promove encontro entre Bocage e Olavo Bilac



O que diriam, em possível conversa, o português Bocage e o brasileiro Olavo Bilac? Perante a dúvida, fica-nos, pelo menos, o que disse Bilac sobre o poeta setubalense, pois, em 19 Março de 1917, o Teatro Municipal de São Paulo abria as portas para que se ouvisse a conferência que sobre Bocage ele proferiu. A comunicação foi tão considerada que, ainda nesse ano, em 28 de Novembro, a "Renascença Portuguesa" concluía a sua impressão, dando-a à estampa e trazendo na capa um desenho com Bocage e, no interior, um desenho de Bilac por António Carneiro. Em 2001, o Centro de Estudos Bocageanos reimprimiu essa conferência, associando-lhe ainda um soneto com que Bilac homenageou Bocage.
Mas, voltando à pergunta inicial, sobre a tal possível conversa... em 15 de Setembro, poderemos ficar a saber o conteúdo da mesma. A ideia deve-se a João Natale Netto, que teve a obra A Noite dos Poetas adaptada pelo TAS (Teatro Animação de Setúbal). A estreia ocorrerá no dia de Bocage, pelas 21h00, e terá repetição nos dias 22 e 23 e 29 e 30 de Setembro, pelas 21h30, na Casa Bocage. Para a agenda!

 
Bocage (à esquerda) e Olavo Bilac (à direita) nas reproduções que integraram
a obra Bocage, de Olavo Bilac (Porto: Renascença Portuguesa, 1917)

Para a agenda: Comemorações bocagianas em Setúbal - programa



As Comemorações Bocagianas em Setúbal não se limitam ao 15 de Setembro (dia de nascimento de Bocage em 1765 e feriado municipal), antes ocupam vasto programa ao longo de Setembro. Há actividades para todos os gostos e numa grande diversidade de espaços.






Setembro, mês de Bocage (11)


"Na solenização do 1º aniversário do Monumento a Bocage", por J. A. Rocha (21 de Dezembro de 1872)

domingo, 10 de setembro de 2017

Setembro, mês de Bocage (10)


"Já Bocage não sou..." - Transcrição de poema no Parque dos Poetas (Oeiras)

sábado, 9 de setembro de 2017

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Setúbal homenageia Almeida Carvalho nos 200 anos do seu nascimento


Lápide de homenagem a Almeida Carvalho descerrada na tarde de hoje

Os dias de sexta-feira e de sábado, 8 e 9 deste Setembro, são ocupados pela memória e homenagem a João Carlos de Almeida Carvalho, um dos mais extraordinários coleccionadores de informações sobre a história de Setúbal e fundador do jornal O Setubalense, nas instalações do antigo Quartel do 11.
Com organização do Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal (MAEDS), da Associação dos Municípios da Região de Setúbal (AMRS), da Câmara Municipal de Setúbal, do Arquivo Distrital de Setúbal, da Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão (LASA) e da Universidade Sénior de Setúbal (UNISETI), os dois dias são dedicados ao “Encontro de Homenagem a Almeida Carvalho”, tendo incluído a sexta-feira um momento para o descerramento de uma lápide evocativa na casa em que nasceu Almeida Carvalho, mesmo em frente ao antigo Quartel do 11.
As sessões de sexta-feira foram, sem favor, profícuas e de grande qualidade. Na parte da manhã, Fátima Ribeiro de Medeiros falou sobre as “Referências literárias em Acontecimentos, Lendas e Tradições da Região Setubalense, de Almeida Carvalho”, uma leitura atenta a todas as alusões literárias nessa obra de Almeida Carvalho que foi publicada na década de 1960, reunindo um (restrito) conjunto de notas do vastíssimo acervo deste investigador; seguiu-se Maria João Pereira Coutinho, que abordou o tema festivo sob o título “Do cerimonial religioso ao aparato régio: o contributo de Almeida Carvalho para o estudo das celebrações em Setúbal na Época Moderna”, comunicação em que a autora perpassou sobre o contributo dos registos de Almeida Carvalho para se conhecer um conjunto de elementos do quotidiano festivo em Setúbal; Carlos Mouro apresentou “Notas sobre a indústria de curtumes setubalense” para falar sobre a designada “Fábrica da Sola”, hoje esquecida, a demonstrar que a industrialização em Setúbal não tem ligações apenas com as conservas; Ernesto Castro Leal interveio com uma leitura sobre “Estado liberal e poder municipal: Almeida Carvalho e a Reforma Administrativa de 1855”, perpassando pelos editoriais assinados por Almeida Carvalho em O Setubalense e pelas críticas que este investigador fez à anexação de Palmela e de Azeitão no concelho de Setúbal em 1855; João Costa fez o ponto da situação do seu estudo sobre “O Tombo da Câmara de Palmela (Séc. XIV-XIX): Da arqueologia dos documentos à arqueologia a partir dos documentos - Um contributo de João Carlos Almeida Carvalho”, salientando o contributo importante de Almeida Carvalho para a reconstituição do Tombo de Palmela naquele período (haja em vista a perda e desaparecimento de muitos documentos alusivos à história de Palmela); Rogério Palma Rodrigues analisou “A Casa da Roda dos Enjeitados”, destacando o contributo dos elementos recolhidos por Almeida Carvalho para um estudo sobre este fenómeno na região de Setúbal.
A tarde teve os contributos de Carlos Tavares da Silva, ao falar sobre “Arqueologia e esboço paleográfico da Baixa de Setúbal”, em que resumiu as investigações arqueológicas levadas a cabo, contributos importantes para atestar a construção e o crescimento de Setúbal; Tânia Casimiro apresentou “Rituais de inumação em Almada (Sécs. XV-XVIII): Os casos de Murfacém e Igreja da Misericórdia”, em que deu conta das investigações levadas a cabo nestes dois pontos; Eurico Sepúlveda falou sobre “Cerâmica de paredes finas de Salacia Urbs Imperatoria - Recolhas de prospecção arqueológica”, apresentando resultados de descobertas alcacerenses; Pedro Miguel Lage surpreendeu com o estudo “Antigas Quintas de Setúbal: Espaços físicos e sociais”, dando nota da sua investigação em curso sobre as mais de 170 quintas da região de Setúbal que tem em estudo, estabelecendo relações familiares e patrimoniais nesse emaranhado por conhecer; Isabel Macedo contou a história sobre “A Casa da Comenda de Raul Lino: De torre medieval a residência de veraneio”, passando pelas várias fases daquele espaço da antiga freguesia da Ajuda; Fernando António Baptista Pereira estudou “Almeida Carvalho e o Convento de Jesus” para chamar a atenção para a necessidade de ser trabalhado o espólio legado por Almeida Carvalho.
Um programa intenso e de qualidade, que continuará amanhã, assim se assinalando o segundo centenário do nascimento de Almeida Carvalho (1817-1897).

Setembro, mês de Bocage (8)



"Ao meu falecido irmão Manuel Maria Barbosa du Bocage", de José Carlos Ary dos Santos
(Poema publicado na obra VIII Sonetos, em 1984 - reproduzido na Obra Poética - Lisboa: Edições Avante, 1994)

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Setembro, mês de Bocage (07)


Poema de Bocage em rótulo de vinho para campanha de solidariedade
(Casa da Poesia de Setúbal, Dezembro de 2014)

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Setembro, mês de Bocage (06)


Bocage, série "Pasmadinhos de Setúbal", de Maria Pó (Setúbal, Parque do Bonfim, 2016)

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Setembro, mês de Bocage (05)


Mural publicitário ao leite "Vigor", com Bocage e Outros (Lisboa, Agosto de 2014)

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Setembro, mês de Bocage (04)


 Evocação de Bocage, por João Antero (Oeiras, Parque dos Poetas)

Versos de Bocage na base da escultura de João Antero (Oeiras, Parque dos Poetas)

domingo, 3 de setembro de 2017

Setembro, mês de Bocage (03)


Bocage na promoção do Campeonato da Língua Portuguesa em 2008

sábado, 2 de setembro de 2017

Setembro, mês de Bocage (02)



Bocage, por JAF (Série "Bocage na Rua", 12 - Setúbal, 2016)


sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Setembro, mês de Bocage (01)


Bocage (construção "Lego"), por Daniel Fernandes
Setúbal Fan Event - Lego, Maio de 2017

Para a agenda: Albérico Costa estuda Setúbal, a "cidade vermelha"



Com as tantas histórias que se contam do período entre 1974/1975 em Setúbal, nunca se sabendo até que ponto a memória nos atraiçoa ou nos constrói, esta obra de Albérico Afonso Costa torna-se imprescindível por não se tratar de um trabalho em que a ideologia impere mas uma investigação com o rigor possível e com recurso às fontes possíveis. A ler, a pensar.
O preâmbulo que o autor assina é por si elucidativo das dificuldades: “Nenhum dos livros que publiquei sobre a História de Setúbal me causou mais inquieta apreensão e se revelou de uma dificuldade tão manifesta. Esta investigação sobre os anos ardentes do PREC confronta-se com memórias vivas cujos ‘proprietários’ são testemunhas dos factos que se pretendem narrar e de que foram simultaneamente produtores e produto.” É a dificuldade da escrita da História em convívio com os que dela foram protagonistas. Questões de choque, questões de verdades.
E, mais adiante, regista Albérico Costa: “A memória individual conflitua muitas vezes com a realidade que a História quer preservar.” Uma defesa prévia, não ignorando o historiador que todos os que foram agentes querem ter um lugar na História ou, pelo menos na “sua” história. De uma coisa não há dúvida: é que o livro relata o que foram “os intensos dezanove meses vividos em Setúbal no período revolucionário de 1974-1975”. E o leitor pode preparar-se para rever, reviver, contestar ou apresentar uma versão diferente de acordo com a sua vivência. Mas nada disso será suficiente para pôr em causa o trabalho de Albérico Costa, que nem estava em Setúbal na altura dos acontecimentos relatados - este é o seu contributo resultante da investigação e da consulta, uma porta aberta, pois. É que, como realça quase no final do texto introdutório, “a investigação posterior encarregar-se-á de consultar novas fontes e promover novas leituras acerca desta conjuntura que trouxe tantas mudanças à vida colectiva desta comunidade.”
Um muito bom contributo para a história recente de Setúbal traçado em cinco partes. Na mira de que surjam outros estudos sobre uma época de que muitos sabem mas que não tem sido estudada com o distanciamento imprescindível.
A apresentação pública da obra Setúbal Cidade Vermelha - Sem perguntar ao Estado qual o caminho a tomar (1974-1975), de Albérico Afonso Costa (Setúbal: Estuário, 2017), será feita por Fernando Rosas em 8 de Setembro, na Casa da Cultura, em Setúbal.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Para a agenda: "Tudo se desmorona - Impactos culturais da Grande Guerra em Portugal"


Elemento central do tríptico "Tropa de África", de José Joaquim Ramos

“Tudo se desmorona - Impactos Culturais da Grande Guerra em Portugal” é o título de uma exposição patente na Fundação Calouste Gulbenkian desde 30 de Junho, com curadoria de Pedro Aires de Oliveira, Carlos Silveira e Ana Vasconcelos, que pode ainda ser visitada até 4 de Setembro, segunda-feira.
A exposição, inaugurada no segundo dia do colóquio internacional “Ninguém Sabe que Coisa Quer - A Grande Guerra e a Crise dos Cânones Culturais Portugueses” que teve lugar na Fundação entre 28 e 30 de Junho, pode ser acompanhada pelo jornal-catálogo intitulado O Mundo Derrubado, que integra os textos-roteiro da exposição (pena que não inclua a cronologia que vai sendo mostrada ao longo da exposição) e os estudos “Semear ventos, colher tempestades: a República e a Grande Guerra” (de Pedro Aires de Oliveira), “A Guerra nas letras” (de Luís Augusto Costa Dias) e “Memória da I Guerra Mundial: um projecto republicano” (de Sílvia Correia).
Muito mais do que pretender mostrar o que foi a Guerra, esta exposição debruça-se sobre as repercussões dessa mesma Guerra na vida portuguesa em diversos sectores: na arte, nas relações e nas tensões sociais, na política, na imagem dos militares, nos hábitos de consumo. E possibilita ver algumas peças raras e outras que nunca terão sido expostas ao público (como o tríptico “Tropa de África”, de José Joaquim Ramos).
O visitante pode cruzar-se com fotografias da época, com primeiras edições de obras de relatos da Guerra, com páginas jornalísticas do tempo, com alguns objectos, sons, músicas e filmes que retratam o momento. Pode ainda encontrar-se com a memória e não é em vão que a última secção aborda a memória construída sobre esse período, seja assinalando o papel da Liga dos Combatentes e as campanhas de apoio aos regressados da Guerra, seja com os desenhos e maquetas de monumentos que ficaram para a perpetuação da memória da participação portuguesa.
A não perder!

Para a agenda: Manuel Bola vai ser homenageado em arte pública


"Homenagem a Manel Bola", na Feira de Santiago 2017, em Setúbal

Se Manuel Bola, nome por que ficou conhecido o actor que tinha o nome real de Carlos Rodrigues, estivesse entre nós, faria 73 anos no domingo, 3 de Setembro.
Não está, as nossas saudades trazidas pelo tempo em que com ele estivemos, falámos, rimos e colaborámos são muitas. E a nossa memória vai-se encarregando de o trazer até nós naquilo que ele teve de melhor, que foi o culto da humanidade, da amizade, aliados a um saber e a uma disponibilidade impressionantes.
Manuel Bola passou pelo teatro (vários grupos), pela televisão, pelo cinema, animou sessões públicas culturais, divulgou forma de fazer teatro e cultura e deixou três livros - dois de poemas, Sem Amor (Setúbal: Estuário, 2005) e Poemas a Soar a Manhã (Setúbal: Muito Cá de Casa, 2013), e um de contos, Histórias do Pincel da Barba (Setúbal: Muito Cá de Casa, 2015).
Essa mesma memória vai ser assinalada no dia dos seus 73 anos, quando, pelas 11 horas, frente ao Fórum Municipal Luísa Todi, for inaugurado monumento evocativo com o gesto de saudação que lhe era conhecido, obra de arte com a assinatura de Jorge Pé-Curto.
A sessão vai ainda ter a presença do Teatro Animação de Setúbal, grupo em que ele militou, e da recém-criada Associação Cultural TOMA (Teatro Oficina Manel Bola).

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Raul Reis - Fotografia, cartas e a memória de um universo



“Envia-me cartas” é a exposição de fotografia de Raul Reis que está em mostra na Casa da Cultura, em Setúbal, até 5 de Setembro. Poucos dias até ao final, pois. E, se o leitor ainda por lá não passou, aproveite os dias que restam. Vai confrontar-se com umas dezenas de fotografias de caixas de entrada de correio, centradas naquela pala bem conhecida que servia como gps dos carteiros, indicando “cartas”.
Sabemos que as caixas de correio de hoje são sobretudo virtuais e que aquelas que têm existência física nas portas das casas ou dos prédios jazem silenciosas e abandonadas por muito tempo (condizendo com o abandono de muitas edificações) ou servem para receber apenas as notas fiscais e as facturas de serviços... Já não são alimentadas de emoções e de histórias, já não adquirem marcas de aproximação entre humanos. Como escreve o setubalense Raul Reis na nota introdutória ao livro que acompanha a exposição (objecto belo e recomendado), essas caixas de correio com a palavra “cartas” empurram-nos “para as reminiscências de um tempo passado - aquele em que os sentimentos eram deixados no papel”. Quase como se de narrativas se tratasse...
Mas Raul Reis alargou o âmbito da sua exposição ao público, tendo criado sítio adequado na net, em que cada visitante podia escolher a fotografia de uma das caixas de correio e escrever-lhe uma carta. E assim surgem disponíveis para o público visitante 32 cartas com destinatários múltiplos - amigos, familiares (avó, pai, filhos), amores, locais, etc. E, no final da exposição, o visitante pode escolher entre 32 postais que numa face exibem a respectiva porta e caixa de correio e na outra a carta que lhe foi dirigida. Pode escolher e pode trazer. Uma, duas, três ou todas as portas e todas as cartas, que ali estão para oferta.
E, nos escritos que ali surgem reproduzidos, há para todos os gostos e tipologias, como se imagina. Desde o mais elaborado ao mais simples, do mais loquaz ao mais reservado, do mais metafórico ao mais imaginativo, do mais pessoal ao mais colado a um momento histórico. Refiro alguns exemplos, entre vários que poderia escolher: escreveu Filipe Lourenço que “as cartas são pessoas com selos na ponta da língua”, bela imagem que carrega todo um historial ligado ao gesto de escrever e enviar uma carta; Marco Dias aproveitou o momento histórico e enviou missiva a Donald Trump, em tom sarcástico e de medição de forças em nome da humanidade, contendo uma praga rogada; Susana Albuquerque escolheu Lisboa como destinatária, escrevendo desde Madrid e concluindo a sua mensagem com uma declaração de amor - “querida Lisboa, se eu pudesse, vivia em todas as boas cidades do mundo só para descobrir tudo o de que eu gosto mais em ti”; Tiago Gonçalves optou por uma carta aos filhos, que fecha a declarar-lhes que “devia poder mandar fazer uma gaiola para guardar os vossos sonhos”.
Há, contudo, uma carta que se me apresentou como preferida. Com autoria de NQ, estabelece uma relação entre Lino Nossa, 2º Sargento do CEP (Corpo Expedicionário Português) na Flandres em 9 de Abril de 1918, e Celeste, que ficara em Portugal, a quem o combatente promete casamento se regressar ao seu país. É uma carta apócrifa que bem poderia ser verdadeira e que dá a noção do sofrimento e da dor nas trincheiras na Grande Guerra - mesmo neste contexto o valor da metáfora é extraordinário ao referir que a guerra é “um purgatório em vida”.
Ao leitor caberá descobrir outras mensagens, outros segredos, outras sublimes frases em cartas que não entrarão em caixas de correio mas que estão ao dispor nesta exposição, que é quádrupla: a dimensão das fotografias de Raul Reis, a dimensão das cartas de 31 autores (há dois textos de uma autora), a associação das cartas às fotografias nos postais, o mundo das caixas de correio em livro (Envia-me Cartas / Send Me Letters. No Frame Publishing, 2017). Vale a pena!
Refira-se ainda que “Envia-me cartas” é a primeira fase de um projecto em trilogia designado “A Cidade está Deserta”. E como, em nota final, Raul Reis revela, “Envia-me Cartas” é a parte em que “se explora a nostalgia dos objectos que perderam o seu significado original”. Uma reflexão sobre a cidade, sobre a vida, sobre a actualidade. A ver!

Carta de autoria de NQ, emprestando o momento a um combatente do CEP em 1918